A
HISTÓRIA DO ANTI-SEMITISMO CRISTÃO
Na perspectiva da história dos últimos 2.000 anos, se pode
afirmar com segurança que as organizações e os indivíduos
cristãos que exprimiram solidariedade cristã com o povo judeu
e que educaram a igreja sobre as raízes judaicas da fé cristã
são uma raridade histórica. Deixe-me colocar em perspectiva:
se um encontro para ensinar cristãos sobre os judeus, judaísmo,
as raízes judaicas do cristianismo, ou para celebrar as Festas
Bíblicas tivesse acontecido durante aproximadamente 1.800
anos dos quase 2.000 anos de história da igreja, a coisa mais
leve que poderia Ter acontecido aos cristãos seria a excomunhão,
e em muitos casos a morte. E qualquer membro da comunidade
judaica participando do programa ou apenas ouvindo seria considerado
judaizante e penalizado com morte certa pelas autoridades
eclesiásticas. Um artigo deste tipo não seria autorizado,
com certeza. Mesmo que a história seja algo complexo e que
houveram períodos históricos de liberdade de religião, a observação
acima pode ser considerada como uma generalização correta.
Felizmente, hoje estamos livres para nos reunir e aprender
um do outro.
OS TRÊS PRIMEIROS SÉCULOS DESDE O MESSIAS
(CRISTO)
No primeiro século D.C. a igreja estava bem ligada com suas
raízes judaicas, e Ieshua não tinha nenhuma outra intenção.
No final, Ieshua é judeu e a base de Seus ensinamentos é consistente
com as Escrituras Hebraicas.
Em Mateus 5:17,18 ele diz: "Não penseis
que vim revogar a lei ou os profetas: não vim para revogar,
vim para cumprir. Porque em verdade vos digo: até que o céu
e a terra passem, nem um jota ou um til jamais passará da
lei, até que tudo se cumpra".
Também sabe-se que os escribas da Brit Hadasha (Novo Testamento)
eram judeus, e os apóstolos e primeiros discípulos eram judeus.
Eles adoravam o Shabat, celebravam as festas e iam à sinagoga.
Mesmo os membros da iniciante Igreja em Ierushalaim (Ierushalaim)
e nas vizinhanças da Judéia, Samária e Galiléia, eram predominantemente
judeus, pois sabemos que não haviam nomes não-judaicos entre
as lideranças da igreja de Ierushalaim até depois de 135 D.C.,
quando um grego aparece. Veremos o por quê disto em um momento.
As congregações em outras partes do Império Romano também
tinham raízes judaicas ou hebraicas relativamente profundas,
por se alinharem com as diretrizes da Escola de Pensamento
de Ierushalaim, como ilustrado pelos nomes das várias epístolas
da Brit Hadasha (Novo Testamento).. as cartas para os Coríntios,
Romanos, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses e Tessalonicenses.
Também os escritores das outras Epístolas estavam ligados
à congregação judia. Mas o que aconteceu para causar tão grande
cisma entre as comunidades judias e cristãs? Inicialmente,
ele começou como resultado de diferenças religiosas e sociais.
Antes da Primeira Revolta Judaica em 66 D.C., o cristianismo
era basicamente um seita do judaísmo, como o eram os fariseus,
os saduceus e os essênios. Os cristãos eram também conhecidos
como "os nazarenos". Antes da destruição do Templo
e de Ierushalaim ter sido arrasada pelos romanos em 70 D.C.,
havia espaço para debate dentro do judaísmo na crescente cidade
cosmopolita de Ierushalaim. Entretanto, de acordo com David
Rausch em seu novo livro "A Legacy of Hatred (uma Herança
de Ódio), a intrusão romana na Judéia e a larga aceitação
do Cristianismo pelos gentios complicavam a história do judaísmo
mesiânico.
As guerras romanas contra os judeus não apenas destruíram
o Templo e Ierushalaim, mas também resultaram em forçar Ierushalaim
a abandonar sua posição como o centro da fé messiânica
no mundo romano. Além disso, a rápida aceitação do cristianismo
entre os gentios levou a um conflito entre a igreja e a sinagoga.
Os gentios cristãos interpretavam a destruição do Templo e
de Ierushalaim como um sinal que D-us tinha abandonado o judaísmo,
e que Ele tinha provido os gentios com liberdade para desenvolver
sua própria teologia cristã num contexto livre de influências
de Ierushalaim.
Os sábios judeus que conseguiram sobreviver a revolta se congregaram
em Jabneh (Yavné), uma cidade na Planície de Sharon, perto
de Joppe, e decidiram que a Escola de Hillel, mais chegada
ao secto farisaico do judaísmo, seria adotada e praticada
como halachá ou Lei (os ensinamentos farisaicos estavam mais
interessados no relacionamento entre cada indivíduo e D-us
e encoraja-vam as massas para santidade baseada numa estrita
observância da Torá).
Mesmo que o judaísmo farisaico tenha demonstrado tolerância
com os judeus-messiânicos ou nazarenos antes da destruição,
a assembléia de Jabneh completou uma separação entre o cristianismo
e o judaísmo. Infelizmente, os judeus-messiânicos tinham
se dissociado da guerra contra os romanos e da tragédia que
tinha caído sobre a nação. Acreditando que a sufocação da
revolta pelos romanos era um sinal do final, eles fugiram
para Pella, a leste do rio Jordão, deixando seus companheiros
judeus a se debater sozinhos.
Mais tarde, em 132 D.C. quando Bar Cochba orquestrou a Segunda
Revolta Judia contra Roma, os judeus-messiânicos tinham
outra razão para não participar. Bar Cochba foi nomeado Messias
pelo Rabbi Akiva. Como os judeus-messiânicos viam Yeshua
como o Messias, participar da revolta sob o comando de Bar
Cochba significaria trair suas crenças. Quando a revolta foi
esmagada pelo Imperador Hadriano em 135 D.C... Hadriano expulsou
todos os judeus de Ierushalaim, permitindo que retornassem
apenas um dia por ano, em Tisha Be'av, para o luto pela destruição
do Templo. E daí portanto, o registro do primeiro nome grego
na liderança da igreja de Ierushalaim, como resultado da proibição
romana da entrada de judeus na cidade. Hadriano também reconstruiu
Ierushalaim como uma cidade romana e mudou seu nome para Aelia
Capitolina e o nome da Judéia para Síria Palestina. Isto foi
feito para apagar qualquer ligação judaica com a cidade de
Ierushalaim e com a terra de Israel.
Por esta época, a Igreja tinha efetivamente se separado do
judaísmo. O poder teológico e político se transferiu dos líderes
judeus-messiânicos para centros de liderança cristã
de gentios como Alexandria, Roma e Antioquia. É importante
entender esta mudança, porque ela provocou os primeiros Patriarcas
da Igreja a fazer declarações anti-judaicas.
Com a expansão da igreja dentro do Império Romano e com o
crescimento das congregações de não-judeus, o pensamento grego
e romano começou a entrar e completamente mudar a orientação
da interpretação bíblica através da psique grega e não de
uma psique judia ou hebraica. Isto depois resultaria em muitas
heresias, algumas das quais ainda praticadas pela igreja.
Com o judaísmo e o cristianismo seguindo caminhos distintos,
o vácuo foi se tornando maior. Os judeus tinham sido suprimidos
com eficiência pelos romanos, e a cristandade estava se espalhando
com vigor. Isto preocupava Roma e a pressão política decorrente
se tornou o terceiro fator no crescente cisma entre cristãos
e judeus. Sob a lei romana, o judaísmo era considerada religião
lícita, uma religião legal, pois ela predatava Roma. Para
unificar o Império Romano, todos deveriam adorar os deuses
romanos e se sacrificar ao Imperador como um deus. Obviamente,
os cristãos não podiam se sujeitar à esta adoração pagã e
portanto se recusaram. Foi durante este período que encontramos
cristãos sendo usados para esporte nos coliseus e circos romanos,
como gladiadores, ou lançados aos leões. O imperador Nero
os usava mesmo como tochas, para iluminar seus jardins de
noite, pondo-os em fogo depois de os sub-mergir em alcatrão.
O símbolo do peixe, e não a cruz, e cruzar os dedos eram usados
pelos cristãos entre eles mesmos, como sinais de identificação
durante este período.
Para aliviar esta perseguição, os apologistas cristãos tentavam
em vão convencer Roma que o cristianismo era uma extensão
do judaísmo. Mas Roma não se convencia. As perseguições e
as frustrações resultantes alimentaram uma animosidade para
com a comunidade judia, que estava livre para adorar sem perseguições.
Esta animosidade foi refletida nos escritos dos Patriarcas
da Igreja. Por exemplo, Eusébio escreveu que as promessas
das Escrituras Hebraicas eram para os cristãos e não os judeus,
e que as maldições eram para os judeus. Ele dizia que a Igreja
era a continuação da Tanach (Velho Testamento) e portanto
sobrepujava o judaísmo. A jovem igreja se declarou ser o verdadeiro
Israel, ou seja, o Israel espiritual, herdeira das divinas
promessas, e achava essencial desacreditar a Israel de acordo
com a carne para provar que D-us tinha se despojado de Seu
povo e transferido Seu amor para os cristãos.
Nisto encontramos os inícios da Teologia da Substituição,
que colocava a igreja triunfante sobre um judaísmo e Israel
vencidos. Esta teoria da substituição se tornou em uma das
fundações básicas sobre as quais se baseia o anti-semitismo
cristão, mesmo em nossos dias. Incidentalmente, a Brit Hadasha
(Novo Testamento) fala de uma igreja saída dos filhos adotados
de Abraão e de Israel espiritual, NÃO de usurpadores
da aliança e o substituto de uma Israel Física.
No começo do século IV, um evento monumental ocorreu para
a igreja. Em 306 D.C., Constantino se tornou o primeiro Imperador
Romano cristão. No começo ele concedeu aos judeus os mesmos
direitos religiosos que aos cristãos. Entretanto, em cerca
de 312 D.C., ele declarou ser o cristianismo a religião oficial
do Império. Isto assinalou o fim da perseguição de cristãos,
mas o início da perseguição do povo judeu.
Em 313 D.C., o Édito de Milão colocava fora da lei as sinagogas,
e em 315 outro édito permitia queimar judeus, se condenados
por quebrar a lei.
§ Os privilégios antigos dados
aos judeus foram cancelados;
§ A jurisdição rabínica foi abolida
ou severamente diminuída;
§ O proselitismo ficava proibido
e punido com a morte;
§ Os judeus foram excluídos de
altos postos ou da carreira militar.
Em 321, Constantino decretou que todos os negócios deveriam
fechar no dia em honra ao sol, escolhendo assim outro dia
para as preces, avançando ainda mais o cisma. Da noite para
o dia, o Cristianismo recebeu o poder do Estado. Ao invés
da igreja usar a oportunidade para espalhar a mensagem de
amor do Evangelho, ela na verdade se tornou a igreja triunfante,
pronta para vencer seus inimigos. A partir de 312, os escritos
dos Patriarcas da Igreja tiveram outro caráter. Não mais defensivos
e apologéticos, mas agressivos, e dirigindo seu veneno contra
todos fora do rebanho, em especial o povo judeu.
A IDADE MÉDIA
Examinaremos agora os próximos 700 anos de história, desde
os tempos de Constantino até a Primeira Cruzada em 1096 D.C.
Este período é conhecido como a Idade Média, ou Idade das
Travas. O Santo Império Romano procurava expandir a nova fé
nas tribos pagãs da Europa ocidental: entre os ostrogodos
no norte e no leste, os visigodos no oeste, e no Império Franco
que se estendia do Mar Mediterrâneo e do Oceano Atlântico
até o rio Elba, uma região maior do que a atual França.
No início deste período, encontramos exemplos de tendências
anti-judias na literatura da Igreja. No final do século IV,
o Bispo de Antíoco, Crisistom, um grande orador, escreveu
uma série de oito sermões contra os judeus. Ele tinha visto
cristãos falando com judeus, fazendo juramentos em frente
da Arca, e alguns observavam as festas judaicas. Ele queria
colocar um fim nisto, num esforço para trazer seu povo de
volta ao que chamava de a fé verdadeira, e os judeus se tornaram
o alvo de sua série de sermões. Em suas palavras: "A sinagoga
não é apenas um local de meretrício e um teatro, é também
um covil de ladrões e de bestas selvagens. Nenhum judeu adora
D-us".
Pode-se facilmente ver que um judeu messiânico que queria
manter sua herança, ou um cristão gentio que queria aprender
mais sobre o ancestral do cristianismo teria muitas dificuldades
sob esta pressão. Além disso, Crisistom procurava separar
completamente o cristianismo do judaísmo. Ele assim escreveu
no seu Quarto Discurso: Eu já disse bastante sobre aqueles
que se dizem estar do nosso lado, mas estão ansiosos por seguir
os ritos judaicos... é contra os judeus que eu desejo fazer
batalha".
Outra infeliz contribuição que Crisistom fez ao anti-semitismo
cristão foi em declarar todo o povo judeu culpado pela morte
de Cristo. A etiqueta "assassinos de Cristo", aplicada ao
povo judeu foi reafirmada por anti-semitas no desenrolar dos
próximos 16 séculos.
Vejamos este assunto por um momento e acabemos com ele de
uma vez por todas. Para justificar o libelo de assassinos
do Messias, foi citado Mateus 27:25. Nesta passagem, o povo
judeu é mostrado como admitindo responsabilidade coletiva
pela crucificação do Messias: "E o povo
todo respondeu: caia sobre nós o seu sangue e sobre nossos
filhos".
1) - A responsabilidade coletiva de todo um povo por todas
as gerações não pode ser validada pelas palavras de poucos.
Eles estavam falando em nome deles mesmo, não por Israel.
2) - Se eles foram mantidos como responsáveis pela morte de
Ieshua pela sua participação, então os não-judeus são também
responsáveis, porque foi um soldado romano gentio que concretamente
crucificou e pregou os pregos (cf. Romanos 3:1). Bem, se não
todos os gentios, ao menos podemos man-ter como responsáveis
todos os italianos... Acho que você pode ver para onde nos
leva este argumento.
3) - Ieshua se entregou voluntariamente à cruz para morrer
pelos pecados da humanidade e assim nosso pecado foi o que
levou à cruz. Não uma multidão judia ou um exército romano.
4) - Antes de morrer Ieshua disse: "Pai, perdoai-os pois não
sabem o que fazem". Se Ieshua perdoou tanto os protagonistas
judeus como os romanos neste evento, quem somos nós para fazer
menos do que isto?
Prosseguindo neste período da Idade Média, encontramos alguns
líderes perplexos da igreja. Se os judeus e o judaísmo foram
amaldiçoados por D-us, como foram ensinados por séculos, como
explicar sua existência? Agostinho tratou do assunto, elaborando
a doutrina que representa os judeus e a nação como testemunhos
da verdade do cristianismo. Sua existência era mais ainda
justificada pelo serviço que fizeram à verdade cristã, ao
atestar pela sua humilhação o triunfo da igreja sobre a sinagoga.
O povo-testemunha- escravos e servos que deveriam ser humilhados.
Os monarcas do Santo Império Romano viam assim os judeus como
servos da câmara (servicamarae) e os utilizavam como bibliotecários
escravos para manter os escritos hebraicos. Eles também utilizavam
o serviço dos judeus em outra empresa - a usura ou empréstimo
de dinheiro. O empréstimo de fundos era necessário para uma
economia crescente. Entretanto, a usura era considerada como
colocando em perigo a salvação eterna do cristão, e foi portanto
proibida. Assim, a igreja aceitava a prática de empréstimos
pelos judeus, pois de acordo com sua lógica, suas almas já
estavam perdidas de qualquer forma. Muitos mais tarde, o povo
judeu foi usado pelos países ocidentais como agen-tes de comércio
e assim vemos como o povo judeu se encontrou nos campos de
bancos e comércio.
Assim, até a Idade Média, o arsenal ideológico do anti-semitismo
cristão estava já completamente estabelecido. Do ponto de
vista social, a deterioração da posição judia na sociedade
estava apenas iniciando. Durante este período inicial, a judeufobia
virulenta estava primariamente limitada ao clero, que sempre
tentava manter seus rebanhos longe dos judeus. Entretanto,
depois, as crescentes fileiras da classe média seriam as fontes
principais da atividade anti-semita.
AS CRUZADAS
Vamos agora examinar o ano de 1096 e a Primeira Cruzada. Este
foi um período de lutas para a igreja. Haviam dois Papas,
um sendo um anti-Papa. Quando um deles faleceu, o outro, Urbano
II, necessitava de uma causa unificadora e lançou uma Cruzada
ou Guerra Santa contra os muçulmanos na Terra Santa, que estavam
perseguindo os cristãos e desecrando os lugares sagrados e
Ierushalaim.
No verão de 1096, uma multidão indisciplinada de 200.000 camponeses
e artesãos se congregou na França. Como não haviam muçulmanos
por perto, eles viraram sua atenção para os judeus, que, aos
seus olhos, eram tão infiéis e inimigos do cristianismo como
os muçulmanos. Eles descobriram que podiam iniciar a Cruzada
lá mesmo. A crueldade, como a caridade, começada em casa.
Ao marcharem através da Europa à caminho da Terra Santa, eles
literalmente pilharam, saquearam e estupraram. Face aos gritos
selvagens dos cruzados, os judeus crucificaram nosso Salvador
e eles devem voltar a Ele ou morrer. Os judeus tinham a alternativa
do batismo ou da morte. Milhares preferiram a morte de mártires.
Enquanto a Igreja não sancionava oficialmente estas atividades,
elas no entanto prosseguira. Muitos padres e bispos locais
protegeram os judeus e lhes deram refúgio das multidões. Infelizmente,
outros participaram ativamente nas execuções.
Para partilharmos apenas um exemplo, em Mayance (= Meinz,
na Alemanha), o Arcebispo convidou 1300 judeus para se refugiarem
no seu palácio. Isto provou ser um convite para uma matança.
Sob sua supervisão, pois eles foram todos mortos e mesmo ele
partilhou dos espólios confiscados dos cadáveres. Incidentalmente,
o Imperador Henrique IV ouviu falar deste massacre, confiscou
a propriedade do Arcebispo e permitiu aos judeus que foram
batizados à força de retornar ao judaísmo.
Quando os cruzados finalmente chegaram em Ierushalaim, eles
numeravam 600.000. Eles sitiaram a cidade e em 15 de julho
de 1099 penetraram na muralha. Eles mataram os muçulmanos
que estavam na cidade e levaram os judeus a uma sinagoga.
Cruzados com escudos decorados com grandes cruzes colocaram
vigas de madeira em redor da sinagoga e queimaram todos dentro,
cantando "Cristo nós te adoramos!" Há alguma surpresa que
para o povo judeu a cruz é um símbolo de ódio e morte, e não
de amor, reconciliação e salvação? A cruz foi literalmente
tomada e usada como uma espada contra o povo judeu. Ao todo,
houveram nove Cruzadas e elas terminaram em 1291, quando os
muçulmanos novamente recuperaram a posse da Terra Santa.
O QUARTO CONCÍLIO LATERANENSE
Em 1215, foi celebrado o Quarto Concílio Laterense. Durante
este concílio se cristalizou a doutrina da Transubstanciação.
Transubstanciação é a doutrina da carne e do sangue de Cristo
tornados presentes na hóstia (= pão) consagrada e no vinho.
Esta doutrina ainda é prevalecente na Igreja Católica. O resultado
desta doutrina em síntese final se tornou numa nova fonte
de anti-semitismo cristão.
1) - Por séculos a seguir, circularam acusações de desacração
de hóstias por judeus. O libelo da desecração de hóstia é
que os judeus tentavam roubar uma hóstia consagrada e depois
a esfaquear, atormentar e queimar numa tentativa de recrucificar
o Messias. Muitas histórias ilustradas mostrando este fenômeno
fabricado foram circuladas, especialmente na Alemanha, durante
os séculos XIV e XV. Este ensinamento ainda não pereceu. Como
um exemplo pessoal, no meio da década de 1970, as crianças
de um amigo católico voltaram para casa da escola católica
paroquial (em Boston, Massachusetts) com esta história, que
deveria lhes ensinar respeito para com a hóstia da comunhão:
"um rapaz católico e um rapaz judeu entraram numa igreja católica
e o judeu convenceu o católico a roubar uma hóstia de comunhão.
Eles a levaram para casa, entraram num armário e alfinetaram
a hóstia. A hóstia começou a sangrar, encheu o armário de
sangue e afogou os rapazes!" Esta é uma variação da antiga
acusação do libelo de desecração da hóstia, especialmente
porque o malfeitor na história é um judeu.
2) - Um ramo do libelo da desecração da hóstia é o libelo
de sangue. O libelo de sangue diz que judeus assassinam não-judeus,
especialmente cristãos, para obter sangue para a Páscoa e
outros rituais. Descrevia-se que os judeus precisavam beber
sangue de cristãos para que sua aparência continuasse sendo
humana, o sangue cristão também ajudando a eliminar o distinto
cheiro judaico (foetor judaicus), que era o inverso do odor
de santidade possuído pelos cristãos. Qualquer um com um pouco
de conhecimento das leis dietárias judias sabe que aos judeus
está proibido comer sangue, mes-mo se não fosse óbvio que
estas acusações são completamente falsas. Infelizmente, ela
demonstra completa ignorância do estilo de vida dos judeus,
e a falta de relacionamento entre cristãos e judeus naquelas
épocas.
3) - Outro cânone promulgado pelo Quarto Concílio Lateranense
requeria aos judeus usar uma marca distintiva. A forma desta
marca variava de país a país, mas normalmente tinha a forma
de um distintivo, ou um chapéu de três pontas ou pontudo.
Desta maneira, você poderia ter certeza de não entrar inadvertidamente
em contato com judeus. Mesmo na arte medieval os judeus são
mostrados com círculo em suas roupas ou com chapéus pontudos.
Durante este período, muitas autoridades leigas e eclesiásticas
tentaram proteger a comunidade judia de perseguição. Grande
parte do anti-semitismo era agora promovido por uma crescente
classe média.
A INQUISIÇÃO
O próximo evento histórico a marchar a história mundial é
a infamada Inquisição. De acordo com a Lei Canônica, a inquisição
não estava autorizada a interferir nos assuntos internos dos
judeus, mas a procurar cristãos heréticos que tinham regredido.
Entretanto, esta lei foi rescindida baseado em que a presença
de judeus causava o desenvolvimento de heresia nas comunidades
cristãs.
Em meados do século XV, foi iniciada a Inquisição Espanhola.
Na Espanha, dezenas de milhares de judeus foram forçados a
se batizar. Em função disto, eles eram considerados cristãos
e se esperava que se comportassem como cristãos. Estes judeus
batizados eram conhecidos como Conversos ou Cristãos Novos.
Se um camundongo é pego dentro de uma jarra com biscoitos,
isto não o torna um biscoito. Da mesma maneira, forçar alguém
a se batizar não o torna um cristão.
Estes conversos portanto ainda praticavam muitos dos costumes
judeus, como acender as velas de Sexta-feira de noite, mudar
a roupa branca no Sábado, se abster de comer porco e peixes
sem escamas, observar os Dias de Festa, etc. Ser pego praticando
qualquer um dos 37 costumes era base para ser levado perante
um tribunal da Inquisição. Os cristãos deveriam procurar por
estes sinais e relatar qualquer regressão. Uma vez trazido
perante o tribunal, não havia forma de escapar da punição:
1) - Se você confessar e não se arrepender, você será queimado
vivo;
2) - Se você confessar e se arrepender, você será humilhado
em público. Qualquer passo em falso dado depois resultará
em morte certa.
3) - Se você não confessar, mesmo sendo inocente, você será
torturado até confessar e depois queimado.
A igreja não podia executar as vítimas, e então os passava
a um braço secular do tribunal da Inquisição. O sangue não
deveria verter, e daí a fogueira. Isto era justificado por
um texto em João 15:6 - "Se alguém não permanecer em mim,
será lançado fora à semelhança do ramo, e secará; e o apanham,
lançam no fogo e o queimam". Incidentalmente, todas as propriedades
eram confiscadas, enriquecendo o tribunal da Inquisição. Judeus
praticantes (não Conversos) foram ultimamente trazidos perante
os tribunais da Inquisição, como se acreditavam que eles eram
judaizantes, exercendo má influência sobre os conversos. Eles
também julgados e queimados. A Inquisição na Espanha, durou
de 1481 até 1820. Mais de 350.000 judeus sofreram punições.
A REFORMA
Finalmente, um sopro de ar limpo. Os reformistas reconheceram
muitos erros inerentes na igreja e desafiaram a liderança,
o Papa, os bispos, os padres - todo o corpo eclesiástico.
A Reforma teve repercussões importantes e complexas e mesmo
contraditórias na evolução do anti-semitismo. Um ramo do protestantismo,
os Calvinistas e suas ramificações, provaram ser menos judeofóbicos
do que o catolicismo até o século XX. O outro ramo, o Luteranismo,
se tornou cada vez mais anti-semita.
Uma conseqüência imediata da Reforma foi o agravamento da
posição dos judeus nas regiões que continuaram sendo católicas
romanas. Os papas estavam determinados a restaurar a ordem
através da estrita aplicação da Lei Canônica. Isto naturalmente
afetava de forma negativa o povo judeu. Um resultado foi que
à partir de meados do século XVI, os GUETOS foram introduzidos,
primeiro na Itália e depois no Império Austríaco. O gueto
era na verdade o nome de uma ilha em Veneza, que tinha uma
fundição abandonada. Os judeus de Vene-za foram reunidos e
transferidos para este local, onde poderiam ser separados
e controlados. Adolph Hitler reinstituiu o gueto no Terceiro
Reich pela mesma razão. G.E. Roberti, um publicista católico
do século XVIII, declarou: "O Gueto judeu prova melhor a verdade
da religião de Ieshua Cristo do que toda uma es-cola de teologia".
Agora, vamos dar uma olhada no ramo Luterano da Igreja Protestante.
Martin Lutero é o pai do luteranismo. Durante a primeira parte
de seu ministério, de 1513 a 1523, Lutero seguidamente condenava
a perseguição dos judeus e recomendava uma atitude mais tolerante
com eles, baseado num espírito de verdadeira irmandade. Em
1523, ele escreveu um panfleto "Que Cristo nasceu judeu",
no qual ele argumentava que os judeus, que eram da mesma estirpe
como o fundador do cristianismo, tinham razão ao rejeitar
o "paganismo papal" apresentado a eles como cristianismo.
Ele adicionou "Se eu tivesse sido um judeu e visto estes idiotas
e tolos ensinando a fé cristã, eu teria preferido me tornar
um porco a me tornar cristão".
Entretanto, quando eles não aceitaram a sua versão do cristianismo
também, ele se tornou gradativamente hostil ao povo judeu.
Em 1530 ele se referia ao povo judeu como "os judeus arrogantes,
de coração de ferro e teimosos como o demônio", nos seus sermões.
E finalmente, ocorreu. Ele imprimiu dois pan-fletos: em 1542,
Sobre os Judeus e Suas Mentiras, e em 1543, sobre o Shem Hamephoras
(Sobre o Nome Inefável). Estes dois panfletos contêm algumas
das frases mais viciadas e repugnantes jamais escritas contra
o povo judeu.
Quinhentos anos depois Hitler encontrou algumas de suas idéias
e justificativa o tratamento do povo judeu e o Holocausto
nestes escritos. No final das contas, se o patriarca da Igreja
Luterana declarou estas coisas, bem portanto... (tenha certeza
que vossos pecados vos descobrirão).
A IDADE DA LUZ
Ao nos movermos para a Idade da Luz nos séculos XVII e XVIII,
encontramos o povo judeu ainda sofrendo de um legado de preconceitos.
Durante o controle total do cristianismo na Europa, os judeus
podiam existir apenas às margens da vida social européia.
O termo "O Judeu Errante" encontrou sua definição no fato
do povo judeu ser forçado de país a país, de cidade em cidade...
o bode expiatório dos males do mundo, sem propriedades, sem
ocupações intelectu-ais, e nem riquezas.
Quando os europeus estavam morrendo da praga negra, a bubônica,
os judeus foram acusados de envenenar os poços. Na sua falta
de conhecimentos sobre germes e doenças, e vendo o povo judeus
na sua maioria livre da infecção (fato devido às suas leis
dietárias), sua conclusão foi de que os judeus eram a fonte
do problema.
No final, os judeus eram ainda pintados com o mal, instigados
pelo diabo para fazer coisas más. Ou eram caricaturados com
rabos longos, cornos e feições demoníacas.
Aos nos movermos para a era da emancipação, uma nova versão
do século XIX de anti-semitismo surgiu num solo bem cultivado
por muitos séculos na Europa por teologias cristãs, e mais
importante, por mitos populares sobre o povo judeu. Por séculos
cristãos perseguiram por razões teológicas, mas estes "ensinamentos
de aversão" selaram o mais antigo dos temas anti-semitas,
que os judeus eram um elemento estranho singular dentro da
sociedade humana.
OS POGROMS
De 1881 até 1921 houve uma série de pogroms na Rússia. Os
pogroms eram uma série de ataques acompanhados de destruição,
o saque de propriedade, mortes e estupros perpetrados pelas
populações cristãs russas contra os judeus. As autoridades
civis e militares russas apenas observavam. A igreja silenciava
na melhor das hipóteses, e mesmo endossava alguns dos ataques.
Foi durante este período que encontramos uma infame publicação,
O PROTOCOLO DOS PRESBÍTEROS DE SIÃO. Os protocolos foram primeiro
impressos na Rússia em 1905 como uma suposta conversa entre
líderes judeus sobre como dominar o mundo. A publicação original
foi feita sob os auspícios da polícia secreta na imprensa
de Czar Nicolau II da Rússia, que não fazia segredo de ser
membro pessoal da organização anti-semita chamada de Os Cem
Pretos. Mesmo que este panfleto tenha sido provado como falso
em inúmeras ocasi-ões, ele ainda pode ser encontrado na imprensa,
mesmo nos Estados Unidos de nossos dias.
É difícil avaliar o alcance dos pogroms durante os anos de
guerra civil e o número de vítimas que eles ocasionaram. Existem
dados parciais de 530 comunidades, nas quais ocorreram 887
grandes pogroms de 349 pogroms menores: houveram 60.000 mortes
e várias vezes este número de feridos (Dubnow, História da
Rússia).
HOLOCAUSTO
Isto nos traz ao Holocausto, o ápice de 1900 anos de maus
ensinamentos na sociedade cristã. O Holocausto foi a Solução
Final de Hitler para o povo judeu. A Alemanha era a sociedade
mais iluminada, intelectual e aculturada naquela época. Mesmo
assim, a chamada sociedade cristã apenas observava e alguns
mesmo participaram.
Seis milhões de judeus, incluindo dois milhões de crianças,
foram violentamente mortos por Hitler e pelos nazistas. Sua
solução final era de livrar o mundo do "verme judeu". Hitler
chegou à conclusão de que havia um mal na sociedade e o denominador
comum era os judeus, que podiam ser encontrados em todas as
cidades, em cada país da Europa. Eles foram os assassinos
de Cristo, eles precisavam ser controlados, postos a trabalhar,
suas sinagogas queimadas junto com seus livros de preces,
suas propriedades confiscadas, e no final mor-tos. Soa familiar,
não? Nem por um minuto eu acredito que Hitler e seus agentes
de morte eram cristãos, mas eles perpetraram estes atos numa
nação historicamente cristã e houve o silêncio.
O Padre Neimoller, escrevendo sobre este triste capítulo da
história: "O Holocausto em toda sua severidade é algo singular
ao povo judeu. Enquanto outros que foram mortos não eram judeus,
eles foram mortos por razões políticas, ou razões sociais,
como as prostitutas ou homossexuais. O povo judeu, mães, crianças,
camponeses, médicos, músicos, rabinos, professores, foram
todos exterminados APENAS PORQUE ERAM JUDEUS". Felizmente,
houve alguns cristãos que agiram, como Corrie Ten Boom, mas
seu número era diminuto para fazer alguma diferença. Hitler
desapareceu. A Alemanha nazista deixou de ser. A nação que
é a "menina dos olhos" de D-us, o povo Judeu está aqui e Israel
é um fato.
Deste relato histórico, pode-se ver que o conceito de relações
entre cristãos e judeus é algo muito recente. Pode-se ver,
eu agora direi, que as genuínas relações cristã-judaicas têm
ocorrido de forma séria apenas nos últimos 30 anos. Trinta
anos de 2.000. Muito disto veio como resultado do Holocausto,
mas mesmo assim está acontecendo. Vai durar? Somente se você
se tornar parte delas. HÁ AINDA UMA BATALHA A LUTAR, O ANTI-SEMITISMO
NÃO DESAPA-RECEU.
Enquanto que alguns acreditam que o mundo está se tornando
melhor e que o anti-semitismo está desaparecendo, isto não
é verdade. Desde 1980, atos anti-semitas nos Estados Unidos
dobraram e redobraram cada ano. Eles existem em todo o mundo.
Israel recebe muitas reportagens coloridas com uma perpétua
tendência negativa. Israel se tornou num bastão de auto-determinação
para o povo judeu, e o mundo não quer aceitar isto. Uma Israel
fraca e sem de-fesas é aceitável. Mas uma Israel forte, igual
aos povos do mundo, é intolerável.
Na minha estimativa, a opinião mundial sobre Israel está aprisionada
no antigo barro do anti-semitismo. Depois da Segunda Grande
Guerra, quando os fatos sobre o Holocausto vieram à tona,
muitos grupos e indivíduos inteligentes começaram a defender
o povo judeu, mesmo tarde demais para salvar os 6 mi-lhões
que pereceram. Enquanto não está mais "na moda" ser anti-semita,
isto não fez o problema desaparecer, apenas o forçou a se
esconder. Atualmente, ele se mostra na opinião mundial de
Israel com os povos e os governos trans-ferindo seus sentimentos
anti-semitas a um nível nacional disfarçado de indignação
virtuosa contra o "agressivo Estado sionista". A nova tendência
anti-Israel ou anti-sionista não é nada mais do que o antigo
anti-semitismo com novas vestes.
Como podemos contrabalançar isto? Podemos tomar uma posição,
saber nos-sos fatos e ser uma voz cristã coletiva de apoio
e encorajamento... Isto é algo que não foi feito em toda a
história da Igreja. Sim, houveram cristãos individuais que
falaram, mas agora eu acredito que temos uma oportunidade
de fazer uma diferença, porque podemos mostrar nossa solidariedade
como um grupo.
Irmãos, qual é nossa resposta a isto?
Gostaria de refletir Romanos 11, onde Paulo nota que o povo
judeu é "amado por causa dos patriarcas, e que pela nossa
misericórdia, eles receberão misericórdia." Oh, como me entristeço
em pensar que o maior instrumento de Satã contra o povo da
aliança de D-us, a maçã de Seu olho, tem sido a igreja. Dizer
que estes homens da igreja não eram cristãos verdadeiros não
é correto, pois seguramente muitos deles o foram.
Aprendamos uma lição de Martin Lutero. Alguns dos maiores
anti-semitas começaram como grandes apoiadores do povo judeu.
O anti-semitismo é um pecado e devemos estar constantamente
em guarda contra sua presença em nossos corações e nossas
vidas. Eu completamente acredito que o anti-semitismo é o
epítome do mal, e a luta contra ele é uma batalha tanto espiritual
como física.
Portanto, tomemos todos os escudos de D-us e nos aprontemos
para a batalha. Foi dito pelo Dr Edward Flannery no seu livro
"The Anguish of the Jews" (A Angústia dos Judeus), que os
únicos capítulos da história cristã conhecidos pelos judeus
foram registrados em páginas que a Igreja rasgou dos livros
de história e queimou.
Agora, também você ouviu, você é responsável por agir. Não
por culpa, mas por um humilde espírito de amor. Chegou a hora
da igreja crescer e aprender a respeitar o povo da aliança
de D-us, nossos irmãos mais velhos, e o judaísmo, a fé patriarcal
de nossa fé. Fiquemos aqui e iniciemos a tarefa de enterra
o ódio de gerações onde quer que o encontremos. Seja nas nossas
comunidades, em nossas igrejas, em nossas famílias e, sim,
se levantar em nossos corações. Você PODE FAZER UMA DIFERENÇA!!!
Retirado
do Bridges for Peace - feito por Clarence Wagner, Jr. Diretor
Interna-cional de Pontes para a paz.