BÁRBARIE
EM NOME DE CRISTO
Igreja lembra envergonhada, os 900 anos das cruzadas
O próximo dia 15 de julho de 1999, está destinado a ser lembrado
com tristeza por boa parte dos cristãos, judeus e muçulmanos
de todo o mundo. Num dia 15 de julho, há exatos 900 anos,
cerca de 600 mil soldados cruzados, tomaram, ensandecidos,
a cidade de Ierushalaim, até então dominada pelos muçul-manos,
mataram a milhares deles e, convictos de que estavam "vingando
a morte de Cristo", aprisionaram 969 judeus dentro de uma
sinagoga, atearam fogo ao templo e, marchando ao redor, cantavam
"Cristo, nós te adoramos".
O episodio é terrível, e apenas uma gota no oceano de sangue
derramado desde então, em nome de Deus "contra os infiéis
pagãos". Ao longo dos anos, a Igreja foi acumulando uma série
de atrocidades, verdadeiros crimes contra a humanidade. Oito
cruzadas realizadas, ataques em massa a quem não "se convertesse
ou se batizasse", culminando no extermínio de 6 milhões de
judeus, dentro de uma nação cristã e sob os olhares de cumplicidade
do clero evangélico e católico, têm manchado as mãos dos cristãos
de sangue e, em decorrência, impedido que milhares de "pagãos"
conheçam, efetivamente, o amor e tolerância que Cristo ensinou
e viveu.
Às vésperas da entrada no terceiro milênio da era cristã,
o momento é de reflexão. Aos que remetem o acontecimento ao
passado longínquo inúmeros pensadores, cristãos ou não, lembram
que ainda hoje cristãos, senão de fato, mas nominais, perseguem
e matam em nome de Cristo. Quando a atrocidade não é explícita,
portam-se como donos da verdade, excluindo pessoas que não
aceitam sua forma de pensamento ou estilo de vida. Ao invés
de ganhá-las pela tolerância e amor, imediatamente excluem-nas,
taxando-as de ímpias, mundanas e merecedoras do fogo eterno
do inferno.
A fim de reparar estes erros, inúmeras vozes têm se levantado
neste século, conclamando cristãos de todo o mundo a organizar
cultos de arrependimento e, mais que isso, a buscar em Deus
graça e capacitação para viver uma vida que faça a diferença
no meio dessa e das futuras gerações. Conheça a história das
cruzadas e do que ela significou para muçulmano e, principalmente
para os judeus.
NOSSAS MÃOS AINDA ESTÃO MANCHADAS DE
SANGUE
Nos séculos onze, doze e treze, a igreja lançou expedições
militares, com a finalidade de emancipar a Terra Santa dos
muçulmanos. Cristãos europeus começaram a ficar preocupados
quando ouviram que peregrinos estavam sendo maltratados e
até mesmo barrados dos locais que consideravam santos.
Como resultado, grandes e fanáticos exércitos cristãos foram
organizados, algumas vezes por ordem dos Papas, e outra pelo
desejo das massas. Um zelo rabínico pela glória da Igreja
foi insuflado e ambos, muçulmanos e judeus "infiéis", eram
jurados de morte, caso não se convertessem ao evangelho. As
primeiras três grandes cruzadas repetiam a triste história:
assim que os exércitos, inflamados pela paixão, marchavam
a partir da Europa em direção ao Oriente Médio, iam cometendo
atrocidades contra muçulmanos e judeus, principalmente judeus,
a quem consideravam os "assassinos de Cristo". Veja alguns
exemplos destas atrocidades, relatadas no capítulo nove do
livro "Nossas mãos estão manchadas de sangue", do judeus messiânico
(cristão), Michael Brown, ainda sem tradução para o português,
oferecido pela Irmanda-de Evangélica de Maria, de Curitiba
e traduzida por Eunice Landsmann:
03 de maio de 1096 - Alemanha
- Os cruzados cercam a sinagoga de Speyer. Incapazes de entrar,
atacam qualquer judeu que esteja fora do templo. Matam onze
deles.
15
de julho de 1099 - Ierushalaim - cidade é capturada.
Os judeus, que a defendiam lado a lado com seus vizinhos muçulmanos,
buscam refúgio nas sinagogas. Os cruzados decidem incendiá-la.
Enquanto a sinagoga arde em chamas, acreditando estar vingando
a morte de Ieshua, o exército marcha em redor, cantando "Cristo,
nós te adoramos", 969 judeus morrem queimado. Os sobreviventes
na cidade são vendidos como escravos. A população de Ierushalaim
é quase dizimada e não se reconstitui durante muitos anos.
16 e 17 de março de 1190
- Inglaterra - a pior violência acontece em York, onde alguns
nobres locais aproveitam a oportunidade de se ver livre de
seus débitos com os judeus e insuflam a multidão para atacá-los.
Os judeus se refugiam no castelo Keep e ficam cercados. Em
16 de março, véspera da páscoa, concluindo que toda esperança
estava perdida, o rabino Yom Tov pediu ao povo que escolhessem
o suicídio ao invés de se submeterem ao batismo cristão que
estava sendo-lhes exigido. Cerca de 150 pessoas morreram dessa
forma e os poucos sobreviventes que haviam decidido aceitar
o batismo, foram mortos da mesma maneira pela multidão. Na
con-fusão, os nobres destruíram todos os registros das dívidas
aos judeus.
Tudo isto foi considerado punição adequada aos judeus, a quem
os cristãos consideravam "os assassinos de Cristo, aqueles
que crucificaram a Ieshua". Em seu raciocínio abençoado pelos
papas da época, o povo nada mais fazia senão vingar a morte
de Cristo. O resultado é que comunidades inteiras de muçulmanos
e, principalmente, judeus, maioria na época, foram destruídas
por essas multidões que, periodicamente, se levantava com
crucifixos e espadas. Como é natural, alguns judeus fingiam
conversão. Quando a pressão diminuía, pensavam que podiam
retornar ao judaísmo, mas estavam mortalmente erra-dos. Novos
exércitos se levantavam para atacá-los.
PILHAGENS, SAQUES E ESTUPROS
O início das cruzadas teve motivação política. Foi idealizada
pelo Papa Urbano II, em 1096, que necessitava de uma ação
unificadora que desviasse a atenção do clero e, principalmente,
dos fiéis, das crescentes disputas políticas dentro da igreja
católica.
A Cruzadas - chamada também de Guerra Santa - foi instigada
inicialmente contra os muçulmanos, que na época dominavam
Ierushalaim e estariam perseguindo os cristãos e profanando
os lugares considerados sagrados da região. A convocação funcionou.
Segundo o livro "A história do anti-semitismo cris-tãos",
de Clarence Wayner e Barry Denison, organizado pela instituição
"Brid-ges for Peace" (pontes para a paz), no verão de 1096,
uma multidão indisciplinada de 200 mil camponeses e artesões
se congregou na França e deram início às cruzadas, à "Guerra
Santa". Como não haviam muçulmanos por perto, viraram a atenção
para os judeus e descobriram que podiam iniciar a vingança
ali mesmo.
Ao marcharem através da Europa a caminho da Terra Santa, pilharam,
saquearam e estupraram. Os judeus tinham a alternativa do
batismo ou da morte. Milhares preferiram a morte como mártires.
Enquanto a Igreja não sancionava as perseguições, os cruzados
a executavam por conta própria. Quando chegaram em Ierushalaim,
seu exército era composto por 600 mil homens. Em 15 de julho
de 1099 penetraram a muralha. Mataram os muçulmanos que lutavam
lado a lado com os judeus e levaram os judeus a uma sinagoga.
Cruzados com escudos decorados com grandes cruzes colocaram
vigas de madeira ao redor da sinagoga, trancando-os, e queimaram
969 judeus dentro, enquanto marchavam ao redor da fogueira
e cantavam "Cristo, nós te adoramos".
Ao todo, foram organizadas oito cruzadas e elas terminaram
em 1921, quando os muçulmanos novamente recuperaram a posse
da Terra Santa.
OITO CRUZADAS EM NOME DE DEUS
Em geral designa-se com o nome "cruzadas" as expedições militar-religiosas
empreendidas pela cristandade do Ocidente contra os muçulmanos,
a fim de lhes arrancar a dominação sob as regiões "santificadas
pela vida e pela morte de Ieshua Cristo". Os guerreiros que
participavam dessas campanhas colocavam no peito uma cruz
vermelha: daí o nome "cruzados".
Para ajudar na conquista dos Lugares Santos foram fundadas
ordens militares como a dos Templários. As principais causas
das cruzadas foram: convicção da necessidade moral para a
Europa Cristã de "preservar o túmulo de Cristo dos insultos
dos infiéis e de proteger os peregrinos, cuja piedade e devoção
os levavam a visitar a Terra Santa"; obrigação de combater
ou prevenir uma nova invasão muçulmana; necessidade de satisfazer
o caráter bélico dos fidalgos". As principais Cruzados foram
oito, entre 1096 e 1270:
A
Primeira (1096-1099) - foi pregada no Concílio de Clermont,
por Urbano II, e Pedro, o Eremita. Seu principal comandante
foi Godofredo de Bouillon. Os Cruzados tomaram a maior parte
da Síria, e dominaram a Palestina, fundando um reino cristão.
Porém, tais ganhos não foram duradouros. Em 1187, Ierushalaim
foram recuperada pelos muçulmanos, sob o comando de Saladino,
sultão do Egito.
A
Segunda (1147-1149) - era composta por senhores feudais
liderados por Luís VII, rei da França e por Conrado III, imperador
do Sacro Império Romano Germânico. Atingiu Constantinopla
e chegou à Ásia, mas foi derrotada antes de atingir a Palestina.
A
Terceira (1189-1192) - foi liderada por Ricardo Coração
de Leão, rei da Inglaterra; por Felipe Augusto, rei da França
e por Frederico Barba Ruiva, imperador do Sacro Império Romano
Germânico. Este último, seguiu por terra e morreu na Ásia
Menor. Seu exército se dispersou. Os outros dois reis partiram
por mar até a ilha de Chipre. De lá, o rei francês retornou
e Ricardo Coração de Leão prosseguiu a luta, conquistando
inúmeros territórios. Embora não tenha conseguido tomar Ierushalaim,
o rei Inglês fez um acordo com o chefe turco para que os cristãos
pudessem realizar peregrinações até a Terra santa.
A
Quarta (1202-1204) - foi constituída pela nobreza feudal
com o objetivo de atacar o Egito, passagem para a Palestina.
Para que pudesse obter seu financiamento junto aos comerciantes,
os cruzados envolveram-se nas disputas dinásticas do Império
Bizantino, cujas riquezas interessavam aos vene-zianos, de
Veneza, cidade potência da época. A Cruzada invadiu e conquistou
Constantinopla, criando e mantendo, entre 1204 e 1261, o Império
Latino do Oriente.
A Quinta (1217-1220) - era formada por húngaros,
austríacos, cipriotas, noruegueses e francos da Síria, que
fracassaram na conquista do Egito.
A
Sexta Cruzada (1228-1229) - foi organizada pelo imperador
germânico Frederico II, que conseguiu firmar um tratado com
os muçulmanos, pelo qual Ierushalaim, Belém e Nazaré ficavam
sob a jurisdição dos cristãos ocidentais, mantendo-se, com
tudo, o livre acesso dos muçulmanos às mesquitas de Ierushalaim.
A
Sétima (1248-1254) e a Oitava (1270) - foram lideradas
por Luís IX, rei da França (São Luís). Não tiveram sucesso.
Na Sétima o rei foi capturado, sendo libertado mediante pagamento
de resgate e na Oitava a expedição (inclusive o rei) foi dizimada
por um epidemia de tifo.
As principais conseqüências das Cruzadas foram: centenas de
milhares de mortes que arrasaram a Europa. Do ponto de vista
político, enfraqueceu o feudalismo; mas alimentava o poder
dos reis; do ponto de vista econômico fortaleceram e enriqueceram
a burguesia. Houve a intensificação das relações comerciais
com o Oriente, mediante a reabertura do Mediterrâneo à navegação
e ao comércio da Europa. Provocaram a riqueza de Gênova, Veneza
e outras cidades marítimas; do ponto de vista intelectual
fomentaram o progresso das ciências, das letras e das artes.
As Cruzadas - e as guerras subseqüentes "em nome da religião"
que arrasaram a Europa por centenas de anos - resultaram em
dezenas de milhares de mortos. Houve um aspecto benéfico resultante
das cruzadas. O surgimento de um intercâmbio cultural vital.
Pessoas que até então viviam restritas ao seu reino ou feudo,
passaram a enxergar um mundo completamente novo do outro lado
do Mediterrâneo.
Em 1215, os barões ingleses forçaram o rei Juan a assinar
a famosa Carta Magna. Este documento histórico foi um reconhecimento
formal dos direitos dos homens. Fundamentava-se na crença
de que a natureza básica do homem era boa, não maligna, e
que o homem era capaz de determinar seu destino. As cláusulas
incluíam a garantia de liberdade para a igreja e respeito
aos costumes dos povos.
"Não sem grande alegria chegou ao nosso conhecimento que o
nosso dileto filho infante Dom Henrique, ... se esforça por
fazer conhecer e venerar em todo o orbe o nome gloriosíssimo
de Deus... Por isso, tudo pensando com a de-vida ponderação,
concedemos ao dito Rei Afonso a plena e livre faculdade, entre
outras, de invadir, conquistar, subjugar quaisquer sarracenos
e pagãos, inimigos de Cristo, suas terras e bens, e a todos
reduzir à servidão, e tudo praticar em utilidade própria e
de seus descendentes... Se alguém, indivíduo ou coletividade,
infringir essas determinações, que seja excomungado. Este
é o trecho de uma carta ou Bula escrita pelo Papa Nicolau
V, em 1454, conferindo ao Rei de Portugal, Dom Afonso V, poder
absoluto, sobre qualquer terra conquistada.
RELIGIÃO DE IMENSURÁVEL ÓDIO
Quando um judeu aceitava o batismo, era obrigado a fazer publicamente
confissões de fé como esta: "Renuncio a todos os rituais e
observâncias da religião judaica, detestando todas as suas
mais solenes cerimônias e doutrinas.
Prometo que nunca mais voltarei ao vômito da superstição judaica
e evitarei qualquer relacionamento com outros judeus. Não
me associarei com os malditos judeus que permanecem sem o
batismo e não recusarei comer carne suína. Se transgredir
qualquer das promessas acima, que seja punido pelas mãos de
meus companheiros e morra queimado ou apedrejado. Se minha
vida for poupada, serei imediatamente transformado em escravo
e perderei todas as minhas propriedades".
Não é portanto, sem motivos que os judeus desprezam a cruz
e o cristianismo. Para eles, o cristianismo não é uma religião
de amor, mas, ao contrário, de imensurável ódio. O professor
judeu Eugene Borowitz explica: "Poderíamos estar mais inclinados
a dar aos cristãos algum crédito se tivéssemos presenciado
um testemunho de amor por parte deles, portando-se como modelos
de uma humanidade redimida. Olhamos através da história e
os encontramos tão necessitados de serem salvos como o restante
da humanidade. Ademais, seus fracassos sociais são especialmente
um descrédito a doutrinas que eles reivindicam como sendo
a única livre do pecado humano".
Eliez Berkovitz, proeminente pensador judeu, escreve, ressentido:
"O clímax da falência dos séculos de cristandade foi o extermínio
de 6 milhões de judeus, entre eles, um milhão e meio de crianças,
levado a cabo friamente dentro do próprio coração da Europa
cristã e apoiadas pelo que chamam santo padre". Berkovitz
continua: "Durante centenas de anos, "Cristo" tem sido uma
palavra maldita em centenas de casas judias. Milhões de judeus
odeiam o nome de Yeshua e os alegados seguidores dele são
a principal causa".
Em razão desta aversão ao nome de Cristo, os judeus que o
aceitam verdadeiramente como Salvador e Senhor, têm tido dificuldade
para publicar sua fé. Com sabedoria, entretanto, têm se apresentado
como "judeus messiânicos" e não "judeus cristãos. Esta forma
de comportamento aliada ao cuidado para manterem um testemunho
irrepreensível diante do judeus, não aniquila a repulsa, mas
diminui sua resistência ao evangelho, que acaba sendo-lhes
apresentado gradativamente.
Jornal Hoje - a Igreja em ação - maio de 1999.
Reportagem Luiz C. Montanini