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Síntese
da História Judaica
Corria o ano de 2140 A.C). Um homem inspirado, Abraão, habitante
da alta Mesopotâmia, recebeu de Deus a ordem de abandonar sua
cidade natal e estabelecer-se num país que lhe seria designado,
fundando ali um povo que seria cumulado de favores e objetos
de especial predileção. Abraão estabelece-se com seu rebanho
no país de Canaã. Seu poder patriarcal passou a seu filho Issac
e deste para Jacob que depois o passou para seus doze filhos.
Um destes, chamado José, vendido como escravo a Faraó, rei do
Egito, soube captar tal prestígio e autoridade, que chegou a
ser vice-rei de Egito. Nesta qualidade chamou seus irmãos e
lhes entregou a terra a terra de Goshen para que a cultivassem
e vivessem de seus produtos. Os israelitas tornaram-se tão numerosos
e fortes, que os reis do Egito, temerosos de sua importância,
os submeteram a dura escravidão, acabando por decretar a morte
de todos os filhos varões que nasceram naquele povo. Porém Moisés,
um desses meninos, jogado às águas do Nilo, foi salvo pela filha
de Faraó e educado na corte do rei.
Mais tarde esse menino seria o libertador daquele povo e seu
legislador. Efetivamente, por decreto divino, Moisés organizou
o grande êxodo dos israelitas, que segundo a Bíblia foi 600.000
homens. Em busca da terra prometida atravessaram a golfo ocidental
do Mar Vermelho e passaram 40 anos no deserto, experimentando
todas as dificuldades da vida nômade. Ao pé do Monte Sinai,
Moisés deu aos israelitas o Decálogo, ou seja, os dez mandamentos,
supremo código moral da humanidade. Antes de morrer, Moisés
nomeou como seu sucessor Josué, o qual depois de atravessar
o Jordão e derrotar os inimigos que se opunham a sua marcha
vitoriosa, distribuiu as terras conquistadas entre as doze tribos.
Josué foi sucedido pelos Juizes entre os quais Jefté, Sansão
e a profetiza Débora, que nos legou um canto lírico (Juizes
5) de grande magnitude. O último dos juízes foi Samuel, que
a pedido do povo mudou a forma de governo e instituiu a monarquia,
nomeando Saul como o primeiro rei.
Morto Saul, entre vitórias e derrotas, foi Davi ungido como
rei e a este sucedeu seu filho Salomão, o qual levou o país
ao cume da felicidade e causou a admiração de todo o Oriente
e Ocidente por seu saber e sua sagacidade. Após a morte de Salomão
seu reino foi dividido entre Roboão, seu filho, e Jeroboão,
seu adversário; primeiro contava com duas tribos e o segundo
com dez, tendo havido entre eles uma luta constante. As nações
vizinhas aproveitaram-se desta discórdia para sua própria expansão
e o povo de Israel perdeu assim o caráter específico que lhe
havia assegurado o rei Salomão. Depois de uns poucos anos de
reinado, Roboão foi vencido, primeiro por Sisac, rei do Egito,
que tomou Jerusalém e se apoderou do templo e dos tesouros reais
e segundo, por Nabucodonosor, rei da Babilônia. Pelo trono de
Israel desfilaram então alguns reis indignos, como Ahab, Joram,
Jersael e Atalia. Todos estes acontecimentos foram os prelúdios
da grande derrota que sofreu o povo hebreu ao cair em mãos de
Senaquerib e Salmanasar, que o levaram cativo para a Assíria.
Começou assim o grande êxodo; os judeus choraram, se desesperaram,
procuraram consolo nas palavras dos profetas, e o judaísmo,
como já dissermos, ampliou seu campo. Já não era a religião
do pequeno povo que vivia a margem do Jordão. O D-us dos filhos
de Israel, a quem estes haviam atraiçoado e por isso sofriam
o exílio, passou a ser, de D-us de um povo dolorido e prostrado,
o D-us de toda a humanidade. Os exilados haviam rompido o círculo
do nacionalismo e acercavam-se do universalismo; e quando por
fim Ciro, destruído já o império assírio, permitiu aos desterrados
que voltassem ao seu país, Esdras e Nehemias trabalharam para
formar novamente um povo, ao qual proporcionaram uma moral mais
elevada que a anterior. A parte da Palestina onde o povo emigrava
se estabeleceu, foi chamado Judéia e seus moradores receberam
o nome de judeus.
Povoaram novamente as cidades e obtiveram permissão para reconstruir
o templo e as muralhas de Jerusalém. A forma de governo daquele
novo Estado foi uma espécie de república teocrática. O povo
vivia tranqüilamente, refazendo-se do ambiente de que havia
sido vítima durante os anos de cativeiro na Babilônia. No tempo
dos selêucidas o povo judeu sofreu muito novamente, pois estes
soberanos e sobrecarregaram de impostos e o perseguiram por
sua religião. Antíoco Epífano mandou erigir uma estátua de Júpiter
Olímpio no meio do templo e fez morrer muitos judeus que não
quiseram abjurar as suas crenças ante esse divindade. Surgiu
então uma família, cujos membros uniam a um grande talento militar,
notórios dotes de governantes. Foram os Macabeus. O primeiro
deles que resistiu aos decretos de Antíoco foi Matatias, que
matou um policial e por isso viu-se obrigado a fugir para as
montanhas seguido por um punhado de valentes. Seu filho Judas
Macabeu vendeu os sírios em diversos encontros; entrou vencedor
em Jerusalém e restabeleceu o culto divino.
Após a morte de Judas, seus irmãos Jonatan e Simão continuaram
sua obra, lutando pela liberdade de sua pátria até obrigar Antíocro
a aceitar a paz. O judaismo saiu vitorioso de seu choque com
o helenismo. Conhecia-se sobre este nome a forma de civilização
grega que, estando já a Grécia em decadência, foi difundida
pelo mundo asiático e egípcio por Alexandre Magno e especialmente
por seus sucessores. O helenismo difundiu-se também na Judéia,
onde o sentido grego da vida, mais superficial e cheia da formosura
da natureza, havia entusiasmado muitos judeus que possuindo
possivelmente tendências assimilacionistas muito desenvolvidas,
haviam começado a sentir o peso de sua doutrina-mãe, demasiado
séria, e de suas normas de vida muito severas. Na Judéia o helenismo
foi combatido com armas pelos Macabeus e verbal mente pela obra
incansável e contínua das sábios, os quais, com o correr dos
séculos foram substituindo os profetas.
Enquanto os "hassidim", isto é, os puros, os defensores dos
Hashmoneus, se afastavam da vida política, surgiu um novo partido,
melhor dito uma nova seita: a dos saduceus. Estes, aferrados
com vigor ao sentido literal do código sacerdotal da Torá, não
prestaram atenção e rechaçaram a lei oral que ia se difundindo
entre o povo por obra de outra seita: os fariseus representaram
na época hashmonéia e mais tarde na queda de Jerusalém o verdadeiro
elemento salvador do judaísmo. Com efeito, estabeleceram uma
doutrina intermediária entre a dos saduceus, rígidos sacerdotes
que apesar de seu sacerdócio dedicavam demasiado tempo a vida
mundana e a dos essênios, que com seu ascetismo e sua vida contemplativa
se esqueciam da vida humana, se suas necessidades e suas desditas.
Os fariseus, por seguirem a lei oral, foram os iniciadores do
vastíssimo trabalho que se conhece como o nome de Mishná. Não
se deve esquecer que a mais puras doutrinas evangélicas, que
são um compêndio das judias, surgiram não só dos círculos assênios,
como também dos fariseus; e que Jesus mesmo, assim como os judeus
conversos que se chamaram cristãos, tiveram relações amistosas
com muitos fariseus. Porém, enquanto os doutos sábios trabalhavam
pelo desenvolvimento da moral do povo, a política palestinense
ia piorando de dia a dia.
Uma espada mais pesada e mais forte que a dos gregos, a de Roma,
havia chegado ao Oriente. Os judeus, com suas lutas religioso-filisófico-políticas
e com seu D-us, muito acima dos do Panteão romano, molestavam
os imperadores que viam neles uma causa perene de tumultos.
E começou a guerra judaica. Durante anos lutou-se na pequena
Palestina; durante muitos meses foram sitiados Jerusalém e seu
santuário; e no ano 70 (D.C.) o imperador Tito conseguiu entrar
na cidade: incendiou o templo e assassinou e vendeu a maior
parte de seus habitantes, começando assim para o judeu na vida
errante. Algumas famílias imigraram para as regiões asiáticas;
ouras fixaram sua residência no ocidente, enquanto os judeus
de Alexandria, os já helenizados, continuaram vivendo no mesmo
ambiente e desenvolvendo sua cultura da maneira mais perfeita.
Enquanto os exilados procuravam salvação em diversas terras
e se preocupavam com sua vida e seu trabalho, na Palestina continuava-se
vivendo sob certa autonomia. Na escola de Iavne, onde rabi Iohanan
ben Zacai havia salvo o judaísmo, formou-se uma academia e um
tribunal supremo, cujo chefe chamava-se "Nassi"(príncipe).
Em Iavne foram-se desenvolvendo as idéias para a formação da
Mishná e, em seguida, no Talmud. Enquanto os sábios trabalhavam
sem descanso para eternizar o judaísmo, os homens em que sua
vida diária mal suportavam o jugo romano, encontraram um chefe
e se rebelaram. Encabeçados por Bar-Cochba e apoiados pelo sábio
Aquiba, os judeus entregaram-se a luta. A visão da liberdade
que assomava as suas consciências, transmitia força aos seus
músculos e lutavam com todo vigor, mas a rebelião foi sufocada
com grande derramar de sangue, morrendo ambos os chefes como
mártires de uma idéia que não puderam converter em realidade.
Depois desta derrota adormeceu por séculos o alento patriótico
do povo judeu. Cada um reclinou sua cabeça e suportou sua desgraça
limitando seu pensamento a vida diária, deixando seu rabinos
e sábios o cuidado da Torá e do judaísmo. Enquanto a falta de
esperança, pior que o desespero, apoderava-se de cada indivíduo,
nas escolas da Palestina e da Babilônia os doutos, surdos aos
apelos da vida, no correr dos séculos a salvação do judaismo
e do judeu. A Mishná, obra dos amorítas trabalhavam na compilação
do Talmud.
Foi sobretudo na Babilônia que os estudos alcançavam um desenvolvimento
excepcional. Com efeito, na mesopotâmia o número de judeus ia
aumentando consideravelmente. As comunidades mais importantes,
como as de Mahuza, Nehardea e Pumbedita, eram sede de distintas
academias. Nomeou-se um exilarca de precedência davídica como
chefe do judaísmo babilônico. Mais tarde, a autoridade do exilarca
foi diminuindo e os verdadeiros guias foram os gaons, chefes
das distintas academias. Desta maneira a vida dos judeus transcorria
num feliz desterro, dadicada ao desenvolvimento cultural, filosófico
e moral. Na diáspora romana porém, as coisas não sucediam assim.
No ano 350, ao subir Constantino ao trono, começou contra o
povo judeu uma política de coação, atenuada no entanto nas regiões
onde os judeus sujeitaram-se ao islamismo, podendo desta forma
dedicar-se tranqüilamente ao comércio, como em Bagdad, Cairo
e toda a Espanha muçulmana.
Assim o século IX, houve comunidade judia no Cairo, Fez em Marrocos,
enquanto na Babilônia, uma vez conquistada a Pérsia pelos muçulmanos,
vinha ocorrendo o mesmo fenômeno. O povo judeu, portanto, pôde
continuar seu desenvolvimento cultural somente nos países muçulmanos,
onde podia Ter uma vida mais tranqüila, igual aos outros povos
e dedicar-se a qualquer tarefa ou ocupação. Em troca, no mundo
cristão, a medida que cristianismo ia ganhando terreno no monopólio
das fontes de riqueza dos países do Ocidente, ia a influência
judaica pouco a pouco voltando ao estado de prostração em que
esteve mergulhada nos últimos tempos do império romano. Os judeus
não podiam Ter autoridade alguma sobre os cristãos; eram afastados
dos cargos públicos e eram privados dos direitos de cidadania
quando implicava em algum cargo de autoridade, como ter escravos,
servos a até criados domésticos. Os cristãos deviam evitar todo
contato social com os judeus, os quais deviam Ter uma marca
ou distintivo em suas roupas ou em alguma parte visível do corpo.
Desta maneira, os antigos hebreus e agora os judeus, que eram
um povo essencialmente agrícola, sem aptidão especial e sem
gosto pelo comércio, viram-se obrigados, na sua qualidade de
estrangeiros numa população urbana e de tráfico mercantil, a
mudar suas caraterísticas de vida.
A partir da época feudal, especializaram-se cada vez mais no
comércio e na medicina, que podiam exercer pois lhes eram vedadas
todas as outras profissões. O judeu, por causa das leis canônicas
chegou a ser banqueiro por excelência, e "judeu" e "banqueiro"
tornaram-se vocábulos sinônimos. Desta maneira foram criados
tanto inimigos como credores e ao despertar o espírito comercial,
quando a submissão às leis canônicas foi decaindo ante o imperativo
da luta pela existência, o capitalismo cristão perseguiu no
judeu o competido e detentor de um monopólio produtivo. Na Espanha,
onde os judeus já viviam desde o século II (D.C.) a população
judaica aumentou notavelmente depois da batalha de Guadalete
(711) como conseqüência da invasão dos árabes, provavelmente
por Ter ficado ali grande número de judeus que faziam parte
dos exércitos muçulmanos. A situação dos judeus melhorou, prosperaram,
e houve reis que tiveram médicos, astronômicos e músicos judeus.
Estes possuíam terras, tinham indústrias, faziam serviço militar
sem qualquer restrição, iguais aos outros cidadãos e em certas
jurisdições estavam em mesmo pé de igualdade com os fidalgos.
Neste ambiente, os judeus começaram a desenvolver na Espanha
uma atividade cultural que é tida como a "Idade do Ouro'da história
judaica. Durante 3 séculos, o judaísmo floresceu em Granada,
Córdoba, Sevilha, Saragossa, Barcelona, etc., dedicava-se seus
integrantes a produzir obras literárias e dando início aos comentários
sobre o Talmud, que tornaram mais fácil a procura de qualquer
dado. Com a ascensão da ciência árabe, muitos judeus que também
escreviam neste idioma começaram a ocupar-se da filosofia. A
cultura hebraica deu seus melhores frutos naquela época. Os
rabinos não tratavam apenas de obras religiosas, morais e filosóficas
e sim de todos os temas e argumentos. Assim guiado, o judeu
ampliou sua missão; o homem da sinagoga passou a ser o homem
do mundo, participava da vida pública, ajudava os monarcas árabes
em sua empresas e em sua política e mais tarde auxiliou também
os ingratos soberanos de Espanha a aumentar sua potência e a
conquistar seu império.
A par disso, homens da ciência e audazes navegantes judeus colaboraram
nas façanhas que levaram os portugueses para além do Cabo da
Boa Esperança, até às Índias. Não obstante, os judeus não esqueciam
sua antiga pátria. Alguns voltavam para a Terra de Israel para
ali terminar seus dias, enquanto outros criavam raízes na Espanha
vivendo ali como em sua antiga terra. De Safarad, nome hebreu
da Esoanha, derivou o nome de "Saferadim", como se fizeram chamar
os judeus, pensando com isso conquistar sua tranqüilidade e
seu lugar no mundo. Mas, não foi assim. Repentinamente instalou
um movimento anti-judeu e numa quarta-feira de cinzas, 15 de
março de 1391, uma multidão turbulenta irrompeu no bairro judeu
da cidade de Sevilha. No dia 9 de junho, uma orgia de matança
apoderou-se da cidade. Dalí o tumulto popular propagou-se a
Córdoba, onde morreram dois mil hebreus. Continuou avançando
até Toledo, onde o populacho, em sinal de fé cristã, marcou
para matança de judeus o dia 17 de Tamuz (20 de junho), em cuja
triste e vergonhosa jornada correram torrentes de sangue israelitas
pelas ruas da cidade imperial, sem perdão de idade e sexo.
Sucederam terríveis matanças e cerca de setenta comarcas. Poucos
dias depois do massacre de Toledo, o povo de Valência desafogava
seu fanatismo contra os judeus, esfaqueando os seus cinco mil
e contagiando com seu furor as ilhas Baleares, em cuja capital,
Maiorca, cometeu-se toda sorte de atropelos, prelúdio da trágica
matança levada a cabo em Barcelona no dia 2 de Agosto de 1391
na qual pereceram onze mil judeus. A partir dessa época, o judaísmo
espanhol, cortado no meio, arrastou uma vida apática até que
recebeu o golpe mortal com a Inquisição, fundada na Espanha
em 1480. No dia da conquista de Granada, assegurada graças ao
apoio moral e material dos judeus e que coroavam a unidade espanhola
e o triunfo da cruz, os reis Fernando e Isabel sob a influência
de Torquemada, ordenaram a expulsão de todos os judeus do território
espanhol (31 de março de 1492). De 500 a 600 mil infelizes,
sem outra culpa que a de permanecer fiéis a religião e crença
de seus pais, tomaram o caminho do desterro, sendo este povo
êxodo acompanhado de terríveis sofrimentos e toda sorte de privações.
Em portugal, os judeus levavam até então, uma vida relativamente
calma, mas com Manoel, rei de Portugal que estava em boas relações
com Fernando o católico, do qual iria tornar-se parente, e achando
que em seu caráter de monarca absoluto não ficaria mal a política
absolutista de seu colega, proibiu aos fugitivos da Espanha,
assim como de Portugal, Índias ou países mais hospitaleiros
como a Itália, Turquia, Holanda, etc. Na Itália, devida talvez
a sua política, como também pela persistência das tradições
romanas e certa suavidade de costumes desse país, o judeus não
sofreram grandes contrariedades nem tiveram que imigrar. Não
tardaram a entrar no comércio e a Ter negócios em outros países.
Os judeus fugitivos da Espanha e de Portugal acharam acolhida
em vários estados italianos; porém também ali a Inquisição acabou
imediatamente com a liberdade que tinham e novamente o caminho
do desterro. Foi em Roma que a existência dos judeus sofreu
misérias durante a revolução. Na França os judeus viveram de
uma maneira diferente. Na sua maioria comerciantes, havia também
entre eles tesoureiros, fiscais, marítimos e médicos. Sob a
dinastia dos merovíngios começaram as perseguições. A situação
melhorou muito durante o período carolingio. Com os Capetos
a vida judia tornou-se insuportável no norte da França.
Apesar disto, surgiu um culto dentro do judaísmo francês da
Idade Média - Rashi (rabi Shelomo Itzhaqui) - em torno do qual
se agruparam muitos discípulos. Nos fins do século XII os judeus
foram expulsos da França, mas continuaram vivendo ali, mesmo
sofrendo, até o século XIV. Melhor era sua situação no sul da
França, em Provença, por isso puderam dedicar-se aos estudos
e criaram escolas famosas, cultivando a filologia, a medicina,
a filosofia e a poesia. Há notícias de judeus na Província até
fins do século XVI. Desde estão até pouco antes da época de
Napoleão, não existiu na França o problema judeu, - não havia
judeus! Na Alemanha estabeleceram-se judeus de tempos mais antigos.
O primeiro documento de uma comunidade judaica em Colônia data
do ano 321. Até a época dos últimos carolíngios sua situação
era muito boa. Floresceram escolas em Metz e Magúncia, onde
ensinou o cérebre rabi Guershon ben Judá, chamado "Luz da diáspora".
Quando começaram as Cruzadas e uma onda de fanatismo se apoderou
dos homens, caiu sobre os judeus a espada de Damocles. Comunidades
inteiras como as de Espira, Worms, Magúncia e Colônia foram
assassinadas.
Mais tarde ao estalar a Epidemia negra, o cólera, (1340-1351),
mais de 340 comunidades ficaram quase totalmente exterminadas.
Na Ástria-Hungria, o história do povo judeu apresenta vicissitudes
mais complexas que em outras nações. Os reis magiares serviam-se
dos judeus como preceptores, tesoureiros e administradores de
suas fazendas e de seus investimentos industriais. Mesmo quando
a Santa Sé romana interveio várias vezes para impedir essas
relações, os soberanos voltaram atrás depois de haver acatado
temporariamente as prescrições da cúria Romana. Os séculos XIV
e XV foram nefastos para os judeus austríacos. Durante o tempo
em que o cólera açoitou aquelas regiões, os judeus foram expulsos
da Hungria e ainda que os tenham chamados depois, não recobraram
jamais seu primitivo prestígio, não puderam mais Ter cargos
públicos e foram obrigados a usar um capuz como distintivo de
sua religião. Em 1386 foram vítimas de ultrajes horrorosos em
Praga e outras cidades. A situação moral e material dos judeus
da Áustria e Hungria, melhorou todavia graças aos esforços de
Mordecai Meisel, o primeiro milionário alemão e de Lipman Heller,
rabino de Viena.
Na Europa Oriental os judeus haviam se estabelecido desde a
destruição do primeiro Templo. Na Polônia, eles chegaram por
volta do século IX, procedentes da Alemanha e Bohemia. Ali gozaram
de uma hospitalidade liberal, crescendo notavelmente a população
judaica durante os dois séculos seguintes. O duque de Kalisk
e de Guesen, assim como Casimiro o Grande, outorgaram-lhes uma
liberdade ilimitada no comércio. Os judeus poloneses tinham
por inimigos o clero e os negociantes alemães, e na Ucrânia
e na Rússia pequena, além dos já citados, tinham como inimigos
os cossacos de rito grego oprimido pelos ricos da Polônia cujos
intendentes eram judeus. O judaismo desapareceu da Ucrânia,
e nas outras regiões sofreu muito em virtude das prolongadas
guerras entre os russos, suecos e polacos. Na criméia e na costa
do Mar Negro existiam algumas comunidades antes da era cristã;
para lá dirigiram-se muitos, depois da destruição do Templo.
Assim difundiu-se o judaismo nesses lugares e devido à sua influência
registrou-se a conversão do rei dos cruzares no ano 740 (D.C.).
Muitos judeus do império Bizantino foram para lá mas quando
o reino cuzari foi destruído (969) eles emigraram para a Rússia,
onde, até o século VI, parece que levaram uma vida bastante
tranqüila. Na Inglaterra haviam judeus desde o século VII (D.D.),
mas, notícias exatas só há a partir do século XI. Até o século
XII a situação foi bastante boa, mas sob o reinado do Ricardo
Coração de Leão, começou em Londres e noutras localidades uma
série de perseguições que se agravaram durante o reinado de
João sem erra.
No ano 1264 houve uma verdadeira matança e por um decreto do
ano de 1290 os judeus foram expulsos da Inglaterra, encontrando
refúgio em Flades, França, Alemanha e Espanha setentrional.
Os judeus da Ásia e da África que viviam nos países muçulmanos,
puderam gozar de certa tranqüilidade durante um determinado
período de tempo, porém depois da batalha de Rodas (624), começaram
nos territórios muçulmanos graves perseguições. Omar, expulsou-os
da península arábica, admitindo-os novamente mais tarde. Do
Judaísmo mesopotâmico já falamos. Sob o domínio árabe foi muito
importante o desenvolvimento do judaísmo egípcio, sobretudo
em Fostat, antigo nome do Cairo, capital do Egito. Também em
outras localidades da África setentrional foram-se formando
comunidades judaicas muito importantes. A descrição da situação
do judaísmo nos principais estados europeus até fins da Idade
Média é suficiente para se Ter uma idéia de sua verdadeira orientação
político-social.
Os judeus, que sob certos aspectos são considerados como um
dos povos que tem vivido mais recolhidos dentro de si mesmo
é que apesar das perseguições, conservaram incólume o esotérico
de sua doutrina, viveram durante os tempos medievais e uma parte
da idade moderna, encerrados numa espécie de círculo de ferro
chamado gueto. A reforma, no que concerne aos judeus, tem sido
erroneamente interpretada, ao afirmarem alguns autores, que
ela favoreceu a causa dos judeus. Depois dos dias amargos que
os fez passar o fundador do protestantismo, isto foi benéfico
para os israelitas, pois ao protestantismo deve-se o ressurgimento
da crítica na sua mais ampla acepção. Modificou em parte a psicologia
dos povos ao promover um maior interesse pelos estudos bíblicos,
contribuindo assim, para afzer luz sobre o passado. Sob seu
influxo, as lutas foram menos brutais. O próprio Lutero, que
não podia subtrair-se a instigação que em seu ânimo exerciam
seus companheiros, chegou a sentir uma profunda preocupação
pelos judeus, e como já mencionamos tornou-lhe a vida muito
sombria com seus escritos e suas publicações.
Vejamos em continuação como foi a vida dos judeus nessa época
de reformas e revoluções. Voltaram a França no século XVI com
a anexação da Alsácia e Lorena e com a formação e colônia de
"Anussim" (judeus convertidos ao cristianismo à força) na França
Meridional. A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão,
ao estabelecer o princípio de liberdade religiosa e igualdade,
produziu praticamente a emancipação dos judeus. Napoleão apoiando
este movimento nos anos de 860-1807, convocou em Paris o grande
Sanedrin. Apesar da ótima situação judeo-francesa e apesar de
ter sido a França a primeira a proclamar e liberdade dos judeus,
ainda assim não pode o francês eximir-se do anti-semitismo.
Um exemplo disto foi o célebre processo Dreyfus, que comoveu
o mundo inteiro e desencadeou, ao terminar, uma verdadeira onda
anti-semita. Este episódio teve sua repercussão nos últimos
tempos, manifestada na atitude do governo de Vichy para os judeus,
desde o colapso da França em 1940. Com esta atitude, o marechal
Petain quis desforrar-se da afronta que o militarismo francês
sofreu com a reabilitação do capitão Dreyfus.
Apesar destas raras convulsões no organismo social da França,
os judeus franceses continuaram desenvolvendo sua vida e sua
cultura e sempre o perseguido num mundo inimigo olhou a França
como um guia de liberdade e fraternidade. Nos últimos tempos,
por exemplo, figuravam no parlamento seis deputados e três senadores
judeus. Nas esferas intelectuais francesas contavam-se várias
personalidades proeminentes que gozavam de fama positiva. Esta
era a situação francesa na época da invasão alemã em 1940. Na
Itália, na idade moderna, aos judeus já residentes ali foram-se
agregando muitos exilados da Espanha, Portugal, Alemanha e França.
Os da Espanha estabeleceram-se primeiramente na Itália meridional,,
donde foram expulsos por Carlos V, no ano de 1541; os da França
e da Alemanha instalaram-se na Itália setentrional, no Estado
Pontifício. Até a época da Reforma as condições de vida foram
bem boas, porém com a contra-reforma os judeus voltaram a ser
atacados. Júlio III proibiu o estudo do Talmud. Os judeus foram
encerrados em guetos, excluídos de suas profissões e finalmente
em 1569, expulsos de todas as cidades, menos de Roma e Ancora.
Em Toscana, Mantua, Ferrara e Veneza s situação foi muito melhor.
Na primeira destas cidades, por obra dos judeus e "anussim"
imigrados da Espanha, surgiu a comunidade de Liorda. Estas situações
permaneceram quase inalterável até a Revolução Francesa. No
ano de 1848, começou a emancipação dos judeus em certas localidades
e a mesma sorte tiveram os que foram se agregando ao reino da
Itália, gozando assim estas comunidades judias de uma das melhores
situações da Europa. Nunca estalou ali um movimento anti-semita
e os judeus puderam ocupar posições destacadas tanto no terreno
político como no cultural. Muitíssimos foram os professores
universitários, os homens de ciência e os políticos. Contudo,
também na Itália, desde o ano de 1938, foi envolvida na onda
racial anti-semita. Porém apesar de todas as restrições que
os judeus italianos sofreram, a Itália representa ainda hoje
um oásis de tranqüilidade no inferno nazista, porque o italiano
não é anti-semita por natureza e não sabe o que quer dizer,
ódio ao judeu. Na Alemanha e na Áustria a época moderna caracteriza-se,
no início, por uma grande tranqüilidade para os judeus. Em Hamburgo,
no século XVI, os "anussim" puderam constituir uma comunidade
importante; e em fins do século XVIII também na Alemanha começou
o movimento de emancipação conseguida na Áustria nos anos de
1869-70. Mas o alemão carrega em si desde séculos, o ódio ao
judeu. Nos tempos medievais ele matava em nome da cruz, depois
exterminava em nome de um mito racial; o gato é que sempre o
alemão tem sede de sangue judeu e procura na história uma causa
para derramá-lo.
E é por isso que, apesar da emancipação, ainda que o judeu alemão
haja dado à sua nova pátria o melhor de si mesmo e sua maior
glória com homens como Hertzl, Ehrlich, Eistein e Freud, o alemão
não pode eximir-se de seu anti-semitismo. A vida judaica na
Alemanha e na Áustria nunca teve o alento liberal que se podia
respirar na França, na Itália, na Inglaterra e na América. A
emancipação foi praticamente uma palavra, nunca um feito; tudo
que aconteceu na Alemanha desde 1933 e nos países dominados
pelos nazistas, não é mais que uma conseqüência atávica do ódio
profundamente arraigado nos corações teutões. Na Holanda, depois
da expulsão da Espanha, foram-se formando distintas comunidades
judaicas, entre as quais celebrizou-se a de Amsterdam. Sua situação
ali foi sempre boa, conseguindo-se logo a emancipação. Até a
invasão nazista em 1940 continuaram gozando de todos os seus
direitos. Na Inglaterra os judeus foram admitidos novamente
por Olivério Cromwell no ano 1657, graças a intervenção de Menassé
Ben Israel. Em 1685 um decreto de Jacobo II declarava livre
o culto hebreu e o exercício de suas práticas religiosas. Em
1701 edificava-se em Londres a primeira sinagoga.
Os judeus que imigraram para a Inglaterra eram em parte sefardim
procedentes da Espanha e Portugal e em parte ashquenazim precedentes
da Alemanha. Também aí a emancipação foi bem acolhida e desde
a segunda metade do século XIX a Inglaterra é um país onde os
judeus encontraram suas atividades tanto no terreno político
como no cultural. Não se deve olvidar que o insigne ministro
inglês Lord Beaconsfield, Benjamim Disraeli, foi judeu, e que
o grande químico que salvou a Inglaterra das dificuldades da
falta de combustível na guerra mundial de 1914-18 foi também
judeu, o De. Chaim Weizman, que seria mais tarde o primeiro
presidente do Estado de Israel. Na Polônia, nos séculos XVI
e XVII, a população judia aumentou notavelmente, chegando a
seu máximo explendor econômico, intelectual e espiritual. O
judaísmo safardi parecia Ter-se apagado na vida difícil do desterro,
mas a kuz judaica não está destinada a apagar-se. Na Europa
Oriental e Central, os chamados ahsquenazim de Ashquenaz, isto
é Alemanha - recolheram a luz de seus irmãos de Espanha e começaram
um importante trabalho intelectual. Mais aferrados à tradição
e à religião, seus movimentos foram mais religiosos que culturais.
Por causa das perseguições e dos sofrimentos difundi-se entre
eles a crença da chegadas imediata do Messias. Sabetaí Zevi,
aproveitando vantagens momentâneas entusiasmou-se para logo
desiludir, as povoações judias da Europa Central e Oriental.
Quando esse pensamento coletivo, que fez brotar uma esperança
salvadora apagou-se, a sonhada época messiânica e o falso Messias
tiveram seu fim como conseqüência da falta de lógica do pensamento
que o gerou. Começou então outro movimento místico-religioso:
o hassidismo. Foi iniciado por Israel Baal Shem Tov; a multidão
deu-lhe prosseguimentos a quase todos os nossos dias o hassidismo
continuava vivendo entre os judeus da Europa Oriental. Com o
século XVII terminou a vida tranqüila do judeus na Polônia,
iniciando-se as perseguições, a matança e a escravidão moral.
Sua condição na Polônia e Rússia, apesar de todas as emancipações,
continuou sendo a mais triste de todas, por isso o judeu polonês
sempre considerou a imigração como o único meio de salvação.
Depois da 1ª guerra mundial, a situação aparentemente melhorava,
em virtude da ação de Pilsudsk, foi na realidade de inferioridade
absoluta, e hoje é muito doloroso falar dos judeus da Polônia,
dizimados pelos modernos bárbaros.
Na Rússia, ao modificar-se em 1742 a lei que proibia aos judeus
viver em território russo, começou a imigração para lá em 1804
obtiveram os judeus algumas concessões, sendo porém confinados
a determinadas regiões. Em 1804 o Conselho de Estado adotou
um processo para melhorar a situação judaica; mas em 1843, imputando
aos judeus o exercito de contrabando, obrigaram-nos a residir
em cidades que distassem 50 verst da fronteira. Em 1874 foi
promulgada a lei de serviço militar obrigatório; mas o anti-semitismo
muito difundido produziu os tristemente cérebres "progroms",
sendo particularmente grave o de Kishinev. Pela melhora relativa
em suas condições diárias de vida os judeus puderam desenvolver
sua vida intelectual. Muitos são os homens da letra judeo-russos
que enriqueceram nossa literatura com suas obras. Durante a
revolução, os judeus obtiveram todos os direitos e o anti-semitismo
é considerado pelo governo dos soviets como um grave delito.
É claro que a religião foi perseguida, assim como as outras
religiões, e o judeu russo não sentiu diferença alguma do russo
ortodoxo neste sentido; isto significa que três milhões de judeu
estão totalmente isolados do judaísmo. Na Rumânia, a população
judia aumento muito no século XVII devido às imigrações procedentes
da Pol6onia e da Rússia. A emancipação teve ali muito pouco
êxito e na realidade a Rumânia é a única nação cristã onde a
tolerância religiosa não encontrou guarida.
Persiste ali, de certo modo, a influência da dominação russa
que infiltrou superstições no povo. Ainda que a lei proteja
todos os cultos e os israelitas tenham algum tempo, e um deles
a sinagoga de Bucarest, seja notável como monumento, a multidão
ainda segue a ortodoxia grega. No tempo do Hitler, os rumenos
encontraram no nazismo um impulso para perseguição aos judeus.
Na Turquia, os judeus expulsos da Espanha foram bem acolhidos
e sempre viveram bem ali. As comunidades fundadas em Constantinopla,
Esmirna e Salônica floresceram cada vez mais. No século XVII
os judeus do império turco tomaram parte no movimento messiânico
de Sabetai Zevi. Em geral, a vida dos judeus turcos foi tranquila
e como tal continua até hoje. Na América o judaismo começou
com a chegada dos primeiros judeus da Espanha que vieram em
companhia de Colombo. Desde então foi aumentando a imigração
judaica para as duas Américas. Em 1665 constituiu-se em Nova
Iorque a primeira comunidade israelita. Em 1790 a constituição
do Estado Unidos estabeleceu a liberdade de religião e mais
tarde, em princípios do século XIX a igualdade de direitos.
A imigração da Europa Oriental aumento depois de que Barão Mauríco
Hisch (1831-93) fundou a Jewis Colonization Association (J.C.A.)
que estabeleceu colônias na Argentina para os perseguidos da
Rússia e da Polônia. Na realidade, pode-se afirmar que a condição
dos judeus em toda a América é atualmente a melhor do mundo.
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