Há cada vez menos judeus
no mundo. E são mais velhos"
Sergio Della Pergola, Professor de Demografia
Judaica da Universidade de Jerusalém
Tenho 65 anos, mas caminho muito. Nasci na Itália e emigrei para Israel aos 42 anos. Tenho 4 filhos e 6 netos: ensino demografia com o exemplo. Sou um judeu moderno e tradicional. Sou de esquerda ao israelense, algo muito complexo. Colaboro com a Fundação Spinoza de Barcelona.
Quem é judeu hoje?
Quem se reconhece como judeu.
Com isto é suficiente?
Quem se sente judeu é judeu.
Não deve observar rituais e obrigações?
Não existe uma única maneira de ser judeu. É um sentimento que se converte em atitude e ação de diversas maneiras diferentes.
Qualquer um pode se converter ao judaísmo ou é uma condição que só se herda?
Qualquer um que deseje e solicite pode ser aceito na comunidade judaica.
Conheço poucos casos.
Todos os anos se convertem ao judaísmo 1.500 pessoas em Israel. Devem estudar e passar por uma comissão de sábios. Isso é tudo.
O judeu foi uma raça, uma religião, uma cultura, uma língua, uma minoria... e, para os anti-semitas, uma conspiração.
Porque durante quase dois mil anos eram os outros que definiam o judeu. Hoje, ao contrário, cada judeu define sua condição de judeu, isto complica muito meu trabalho.
Por quê?
Quando perguntamos em uma pesquisa, “Você é judeu?”, alguns respondem: "Não".
“E seu pai ?” - “Sim".
“E sua mãe?” - “Sim". Teoricamente, ele seria judeu também, mas diz que não. Sendo assim, não é.
Quantos judeus há no mundo?
Um pouco mais de 13 milhões.
"Sem o Holocausto, a população
judaica seria de 12 milhões a mais"
Cada vez existem mais ou menos judeus?
Tem menos e mais velhos. A taxa de crescimento dos judeus no mundo é negativa.
Eu pensava que eram mais...
Isso se pode explicar porque a presença judaica na Cultura e nas Ciências é muito superior a sua importância demográfica.
Quantos vivem em Israel?
Em 1948, ano da criação do Estado de Israel, 5% da população judaica mundial vivia em Israel; em 1970, 20%, e, hoje, 41%. Em 2035, metade da população mundial de judeus viverá em Israel.
Talvez os que moram lá não tenham tanta influência...
Este é o desafio israelense no futuro; ser um país tão criativo como foi na Diáspora Judaica.
Quais são suas fontes?
Venho pesquisando este assunto durante 40 anos. Nos EUA, por exemplo, não haviam dados centralizados. Assim, elaboramos uma macro-pesquisa com 250.000 famílias que custou US$ 6 milhões. Resultou que um 2%, ou seja, 5 milhões de americanos, eram judeus.
E na Europa?
Na França são 500.000; na Itália, 30.000. A demografia judaica na Espanha, ao contrario, provocou polêmica porque o número que encontramos é de 15.000, mas muitos consideram que, entre os imigrantes sul-americanos, existem muitos judeus que não se registraram em nenhuma sinagoga.
E na Alemanha?
Caso interessantíssimo. Depois do genocídio, se criou um núcleo de 30.000 imigrantes judeus que saíram da União Soviética. Depois da queda do Muro de Berlim chegaram a ser 120.000.
"É bonito, mas não é realista, acreditar que todos
seremos cidadãos do mundo. A globalização econômica
é inevitável, mas a identidade judaica vai em direção oposta:
cada vez somos e necessitamos mais de nosso grupo"
Quantos judeus o nazismo exterminou?
Cerca de 35% da população mundial de judeus na época: 6 milhões. Em 1939 havia 16 milhões de judeus e, em 1945, eram 10 milhões. Estudamos a projeção sem o Holocausto, a população seria de 12 milhões a mais. Perante o Holocausto, os judeus reagiram de duas formas opostas: alguns renegaram para sempre sua condição, mas outros reafirmaram seu judaísmo e isso parou a dissolução de comunidades nacionais iniciadas no período de entre-guerras. Assim surgiu o projeto sionista de Israel.
O crescimento demográfico palestino é a maior ameaça para Israel?
A Fundação de Israel renasce da soberania judaica depois de 2.000 anos de interrupção devido à destruição do Templo de Jerusalém no ano 70. Assim sendo, o povo judeu volta a ser protagonista de sua história mas, junto ao Estado de Israel, a ONU decidiu criar um Estado Árabe. Se os árabes tivessem criado seu Estado, não teríamos um conflito. Cada mãe palestina tem 4 filhos - nos anos 40 eram 10 -, e as mães judias tem 2,7: uma taxa muito alta, mas inferior à árabe. Um dado para pensar. Demografia, identidade, território... São os três vetores que definem o futuro de um povo. Sharon era consciente disso e por isso optou, no final de sua carreira, por uma política que muitos não compreenderam. Entre o Mediterrâneo e o Jordão, 51% a população ainda é judia.
Uma maioria muito precária...
Sim, por isso Sharon sabia que, se queria manter a identidade judaica do Estado e não transformar em um país com minoria judaica, Israel não tinha outro remédio senão abandonar territórios e isso começou a realizar quando sofreu o ataque cerebral. Na Europa também sofremos com a perda de identidade. No ano 2020 uma cada três austríacos será muçulmano.
Fonte: Luis Amiguet/“La Vanguardia“, de Barcelona.
Colaboração: Jose Julio Rozental. |