A Arte da Fala
A TERRA INTEIRA falava uma única língua e usava palavras comuns a todos. Quem não encara a fala como algo natural — exceto, talvez, aquele que não pode utilizá-la? É um processo tão automático que, na maior parte do tempo, nem sequer temos consciência de que o estamos realizando. Pensamos em algo, sentimos a necessidade de comunicá-lo e simplesmente o fazemos. É apenas quando falhamos — isto é, quando nossa mensagem não é compreendida como pretendíamos — que sentimos a realidade e as possíveis limitações das palavras.

A comunicação é o lubrificante da vida, seja ao conversarmos com os outros ou apenas conosco mesmos. É ela que faz com que tudo funcione em sintonia e transcorra com fluidez. As palavras certas, ditas no momento adequado, podem ter um efeito extraordinário; por outro lado, as palavras erradas podem causar um impacto catastrófico por muitos anos. Hitler — que sua memória seja apagada — conseguiu manipular, por meio de palavras, toda uma geração de pessoas inteligentes para que cumprissem suas ordens insensatas.
Como escritor, você aprende rapidamente a valorizar as palavras. É irritante cometer erros, mas, às vezes, a omissão de uma única palavra muda muita coisa — como deixar de fora a palavra “não” ao dizer o que faltava, afirmando, em vez disso, que não faltava nada. Até mesmo uma única letra pode mudar tudo, como escrever “hear of God” (ouvir a D-us) em vez de “fear of God” (temor a D-us).
Provavelmente, a escrita aprimorou muito o meu vocabulário. Quando você escreve, precisa escolher as palavras conscientemente, o que o leva a buscar termos melhores ou mais específicos. Recentemente, ao contestar a conclusão de uma IA sobre determinado assunto, vi-me explicando meu ponto de vista com um vocabulário muito mais rico do que o que costumo usar. Acho que eu estava tentando impressioná-la.
A palavra hebraica para “palavra” é, geralmente, “milah”, como em “Brit Milah”. Isso pode parecer um pouco estranho em um nível mais simples, mas, na Kabalah, a língua é considerada “Yesod” — o local do “Brit” (Aliança) e uma das “sefirot” — em um nível mais elevado. Por isso, existe também o conceito de “Brit HaLoshon” — a Aliança da Língua. Existe uma espécie de acordo tácito — com um toque de ironia — que firmamos com D-us: o de usar a fala de maneira santa e digna de confiança.
De fato, a Guemará alerta contra o descumprimento da palavra dada e, em sintonia com a “parashá” (leitura semanal da Torah), afirma: “Aquele que puniu a Geração do Dilúvio e a Geração da Dispersão punirá também aquele que não cumpre a sua palavra” (Bava Metzia 44a). Por que fazer referência ao Dilúvio e à Dispersão? A palavra hebraica para Dilúvio é “mabul”, e a torre foi construída em “Bavel” (Babel); ambas derivam da mesma raiz que significa “confuso” — o que acontece quando a fala não é usada para comunicar a verdade. Quando a linguagem se desvincula da verdade, a sociedade entra em colapso estrutural.
Outra palavra hebraica para “palavra” é “teivah”, que também pode significar “caixa” — como aquela em que Ia’aqov Avinu (Jacó) escondeu Diná para protegê-la de Eisav (Bereshit Rabbah 76:9) — ou “arca”, como aquela em que Noach (Noé) embarcou na “parashá” desta semana para sobreviver ao Dilúvio. Isso certamente tem um significado.
E tem. Uma palavra é como uma caixa que contém uma mensagem. Enquanto a pessoa não fala, não sabemos o que ela deseja nos dizer; a mensagem permanece oculta em seus pensamentos. Mas, assim que ela escolhe as palavras certas para transmitir sua mensagem, seus pensamentos são revelados, e tomamos conhecimento de algo que talvez ignorássemos antes, ou confirmamos algo que já sabíamos.
Assim, da mesma forma que a arca protegeu a vida das águas caóticas, uma palavra escolhida com cuidado encapsula e protege um pensamento espiritual oculto até que ele seja entregue em segurança ao ouvinte. Uma simples frase como: “Cuidado!” …podem transmitir a sua percepção de perigo a outra pessoa e salvar uma vida.
O Zohar diz que é possível conhecer uma pessoa pela maneira como ela fala; portanto, se as palavras não têm valor para alguém, essa pessoa também carece de valor. Embora as ações possam falar mais alto que as palavras, elas também podem acabar transmitindo uma mensagem equivocada. É por isso que, como aponta a Guemará, temos o preceito de julgar o próximo de forma favorável (Shabat 97a). Nem sempre a aparência reflete a realidade.
No entanto, a menos que alguém tenha disfarçado deliberadamente a sua mensagem, as palavras são um bom indicador da postura de uma pessoa diante da vida. Isso ocorre porque a fala foi o dom que recebemos quando D-us soprou uma alma no corpo inanimado de Adão. Assim, a fala é uma função da alma (já que os mortos não falam), mas a qualidade espiritual da fala de uma pessoa mede a proporção entre a influência da alma e a do corpo em determinado momento. É como um termômetro espiritual.
De tempos em tempos, sou convidado a contribuir para uma apresentação semanal sobre a “parashá” (leitura da Torah), juntamente com outros cinco escritores. Recebemos o mesmo versículo para explicar, mas dispomos de apenas 250 palavras para fazê-lo. A parte divertida é revisar o texto depois de expor minhas ideias e cortar palavras ou frases consideradas desnecessárias, reduzindo a contagem final para 250 sem comprometer a profundidade da mensagem. É um excelente exercício de reflexão e de disciplina no uso das palavras.
Experimente. Comece a anotar ideias que você gostaria de compartilhar com outras pessoas — talvez à mesa de Shabat. Só isso já é uma ótima iniciativa. Mas, depois, edite o texto; imponha restrições à quantidade do que você diz e à forma como o diz. É divertido e um excelente exercício para o cérebro — algo de que, dada a direção que a sociedade tomou hoje em dia, nunca temos o suficiente.
Tradução: Mário Moreno.

