O Alistamento
Uma das questões mais polêmicas da política israelense hoje é o alistamento de estudantes de yeshivá para o exército israelense. Não é uma questão nova, sendo acaloradamente debatida há décadas. Aqueles que defendem o alistamento têm suas razões, e aqueles que são contra, as suas, sem que haja um consenso real entre eles.

A Torah não é contra o alistamento de estudantes de yeshivá. Isso fica claro na parashá desta semana, na qual o próprio Dus ordena a Moshe que “alista” mil soldados de cada uma das doze tribos para a guerra de vingança contra o povo de Midiã. Como todos os homens que podiam aprender a Torah a aprenderam naquela época, podemos presumir que eles tiveram que abandonar seus estudos por esta milchemet mitzvá.
E essa é a halacha. Qualquer guerra considerada uma mitzvá, como a exterminação dos cananeus quando chegamos à terra, ou a erradicação de Amaleque mais tarde, na época de Shaul HaMelech, exige que todos se “alistem”. Uma guerra existencial, como a que Israel travou em 1973, provavelmente também era uma guerra desse tipo. Mas, além disso, a Torah limita quem pode lutar e quem não pode.
O que está em jogo? A Torah. A Torah é a tábua de salvação para o povo judeu e, de acordo com a Gemara, para o mundo inteiro (Shabat 88a). Se as pessoas não aprendem a Torah, ela é esquecida. Se for esquecida, a Criação deixa de justificar sua existência e o retorno é nulo e inválido.
Isso não é algo para ser encarado levianamente, embora seja assim para muitas pessoas no poder em Israel hoje, que nem sequer acreditam que a Torah tenha vindo de D-us no Monte Sinai. Pelo contrário, da perspectiva deles, quanto mais rápido a Torah fosse esquecida pelo povo judeu, melhor para eles… para todos nós. Eles certamente não atribuem ao aprendizado da Torah a sobrevivência milagrosa do Estado de Israel contra todas as probabilidades, geração após geração.
Esses judeus anti-Torah certamente não atribuem os ataques implacáveis de seus inimigos aos seus ataques implacáveis ao mundo da Torah. Como poderiam fazê-lo se não acreditam na Providência Divina e no valor da Torah para D-us? Não pode haver consenso se um dos lados não reconhece a importância do que está em jogo.
Outro problema é que as Forças de Defesa de Israel (IDF) foram projetadas para ser um caldeirão espiritual. Elas visam tornar todos os cidadãos leais ao bem-estar do Estado, tornando-o a principal prioridade em suas vidas. É isso que dá sentido a viver e morrer pelo Estado, pelo menos para aqueles que costumavam viver apenas para si mesmos.
O “Estado” na parashá desta semana exigia o mesmo tipo de lealdade, mas a D-us. Era também uma espécie de caldeirão cultural, fazendo com que os soldados deixassem para trás suas preocupações pessoais em prol do bem maior que, novamente, era D-us. Como pode o destino do mundo da Torah, e do mundo em geral, ser deixado nas mãos de alguém que não seja D-us e dos líderes da Torah tementes a D-us em cada geração, encarregados de fazer a Sua vontade?
Certa vez, perguntei a alguém para quem tudo isso era um problema: “E se a Torah vier de D-us e o mundo depender do estudo da Torah para se manter seguro?”
Ele pensou a respeito e disse: “Se soubéssemos que a Torah vem de D-us, teríamos que fazer tudo ao nosso alcance para protegê-la… até mesmo viver de acordo com ela.”
“Então”, eu disse a ele, “estamos de acordo. Você concorda que, se a Torah vem de D-us, temos que protegê-la e proteger aqueles que a protegem.”
“Sim”, ele disse.
“Então a questão não é realmente se devemos esvaziar as yeshivás para encher os quartéis do exército. Se a Torah diz sim, então você tem que fazer isso. Se a Torah diz não, então você não pode. A verdadeira questão aqui é: a Torah vem de D-us… e isso”, eu disse a ele, “é uma discussão completamente diferente, para a qual temos seminários para responder a essa pergunta.”
Então, sorrindo para ele, perguntei casualmente: “Então, você quer ir a uma?”
Ele sorriu de volta e disse: “Bem, na verdade, não.”
Acredito que a Torah vem de D-us e que ela direciona minha vida. Ele não acreditava que sim, e isso guiou sua vida. Mas admitir que, se fosse de D-us, a questão do exército não seria um problema, mas sim uma petição para aqueles que a conhecem melhor, o que ele não era, foi ponto em comum suficiente para encerrar a discussão… pacificamente.
É por isso que, nas palavras de um Gadol do passado recente, o melhor que podemos fazer com aqueles que desconsideram a importância do aprendizado da Torah enquanto pressionam para limitá-lo ou encerrá-lo, é ganhar tempo. A incapacidade deles de compreender a centralidade do aprendizado da Torah para o povo judeu e a nossa incapacidade de convencê-los do contrário significa uma batalha contínua até que o Mashiach venha.
Enquanto isso, tudo o que podemos fazer é nos agarrarmos com unhas e dentes, porque o número de pessoas que abandonam a Torah é maior do que o daqueles que retornam a ela. Essa é uma crise, talvez uma que afaste o Mashiach, talvez uma que o aproxime. Enquanto isso, ajuda entender as questões e os proponentes, mesmo que seja apenas para chegarmos lá amanhã e à próxima etapa do Processo Messiânico.
Tradução: Mário Moreno.

