Batalhas de Manteiga
Esta semana, a Torah nos fala da grande dicotomia de caráter entre Ia´aqov e seu irmão mais velho, Esaú. Ia´aqov sentava-se e estudava, enquanto Esaú caçava. Embora seja difícil entender as raízes dessa grande divisão, a reação de seus pais a essa diversidade é ainda mais confusa. A Torah nos diz que “Isaque amava Esaú, porque havia caça em sua boca, e Rebeca amava Ia´aqov” (Gn 25:28).

A divergência em suas opiniões se manifestou na disputa pelas bênçãos. Isaque pretendia que Esaú recebesse suas bênçãos pelos bens materiais, reservando as espirituais para Ia´aqov. Rebeca pressionava seu filho Ia´aqov a também receber as bênçãos pelos bens materiais.
Qual era a diferença fundamental entre a visão de Isaque e a de Rebeca sobre seus filhos? Por que havia uma noção tão divergente sobre quem deveria herdar as riquezas deste mundo? Como é possível que Isaque, que personificava a própria essência da espiritualidade, tenha favorecido Esav, um homem imerso em desejos mundanos?
O vice-presidente Al Gore conta uma história sobre o senador Bill Bradley, que estava de saída. Certa vez, o senador Bradley participou de um jantar no qual era palestrante convidado. O garçom colocou um prato de batatas como acompanhamento e uma porção de manteiga sobre elas. O senador pediu uma porção extra de manteiga.
“Sinto muito, senhor”, respondeu o garçom, inflexível e seco, “uma porção por convidado”.
Com uma expressão que misturava choque, desprezo e incredulidade, o senador Bradley olhou para o garçom formal. “Com licença”, disse ele. “O senhor sabe quem eu sou? Sou o senador Bill Bradley, de Nova Jersey.” O senador pigarreou. “Sou bolsista Rhodes e ex-astro da NBA. Atualmente, faço parte do Comitê de Comércio Internacional e Crescimento de Longo Prazo e do Comitê de Redução da Dívida e do Déficit, e sou responsável pela Tributação e Supervisão da Receita Federal. E gostaria de mais uma porção de manteiga nas minhas batatas.”
O garçom olhou para o senador.
“Sabe quem eu sou?”, perguntou.
“Sou o responsável pela manteiga.”
Isaque compreendia a grande contradição entre seus filhos. No entanto, sentia que Esav, o filho caçador, entendia muito melhor o mundo material. Portanto, era justo que Esav fosse presenteado com as bênçãos do mundo material. Esav, então, complementaria as necessidades de Ia´aqov, e uma verdadeira simbiose surgiria. Rivka, por outro lado, era pragmática. Ela sentia que colocar Esav no comando do mundo material levaria a um acúmulo egoísta que dificilmente daria a Ia´aqov uma parte.
Ela entendia que, embora o sustento de Ia´aqov viesse basicamente da espiritualidade, ele ainda precisava de um pouco de manteiga para sobreviver. E ela não podia confiar que Esav controlaria a manteiga: ela conhecia muito bem a personalidade dele. Não haveria paridade nem partilha. Esav ficaria com tudo.
Todos têm uma função, seja ela espiritual ou humilde, e cada função deve ser executada com senso de responsabilidade e propósito. A discussão entre Rivka e Isaque era complexa, mas também simples. Esav podia ser mais astuto em bater a manteiga; no entanto, ele se certificaria de dar a Ia´aqov a sua parte justa? Rivka sabia que o mundo seria um lugar melhor se todos nós compartilhássemos nossas respectivas porções. Mas ela não contava com isso.
Tradução: Mário Moreno

