D-us tem fé no que você se tornará
Recentemente, notícias sobre um mercado em baixa (“bear market”) abalaram a nação, causando grande pânico econômico. Milhões, ou até bilhões, de dólares são perdidos num instante e, para aqueles com grandes investimentos em jogo, é um momento assustador.

Mas há alguns poucos que se alegram com essa reviravolta. Por quê? Porque estão em uma situação confortável o suficiente para apostar no longo prazo e esperar a tempestade passar.
Então, o que eles fazem? Eles entram no mercado e compram ações a preços historicamente baixos. Eles compram porque enxergam o futuro — o momento em que o mercado inevitavelmente se recuperará e eles poderão lucrar com seus investimentos.
É um negócio arriscado, mas, para aqueles com renda disponível e um olhar atento para o que está por vir — em vez de apenas para o presente —, pode ser uma verdadeira mina de ouro.
O Shabat e as Festas
Uma parte significativa da “Parashá Pinchás” dedica-se a detalhar os vários sacrifícios oferecidos em cada uma das festas, especificamente o sacrifício adicional chamado “Mussaf”. Começando por “Rosh Chodesh” e passando por todas as festas, como “Pêssach” e “Rosh Hashaná”, temos um panorama de todo o calendário.
No entanto, antes de iniciar essa lista, a Torah também menciona a oferenda semanal de Shabat:
E no dia de Shabat… Este é o holocausto de cada Shabat em seu próprio Shabat, além do holocausto contínuo e sua libação.1
Isso levanta imediatamente a questão: por que o Shabat é mencionado aqui, em meio a todas as festas — e logo no início da lista, ainda por cima?2 Embora seja fácil pensar que o Shabat é bastante semelhante às festas, na verdade não é. As festas marcam eventos específicos e dependem inteiramente dos meses do calendário anual. O Shabat, por outro lado, marca a própria história da Criação e não tem relação com o calendário, mas sim com os dias da semana.
Um tratamento baseado em eventos futuros
Todas as festas judaicas estão enraizadas no evento marcante da história do nosso povo: o Êxodo. Começando pelo exemplo óbvio de “Pêssach”, as outras festas também se baseiam em capítulos subsequentes dessa mesma história: “Shavuot” no Sinai, e “Rosh Hashaná”, “Yom Kipur” e “Sucot”, ocorridos mais adiante, durante a jornada pelo deserto. O Êxodo abrange muitos temas e há várias razões pelas quais ele ocupa um lugar tão proeminente em nossa identidade coletiva. Um desses temas concentra-se no merecimento — ou na falta dele — do povo naquela época. Segundo todos os relatos, as pessoas que viviam no Egito estavam longe de ser santas.
De fato, segundo os cabalistas, existem 50 “portões de impureza”, e o povo havia afundado até o 49º.3 Se tivessem permanecido mais um instante, teriam caído no abismo, irredimíveis e perdidos para sempre. Foi precisamente por essa razão que, quando chegou o momento, eles foram retirados do Egito às pressas, no meio da noite — pois, se tivessem ficado mais um momento, teria sido tarde demais.4
Com efeito, o Midrash5 relata que, quando D-us tirou o povo de lá, os anjos acusadores protestaram: “Ei, o que torna esse pessoal melhor do que seus senhores egípcios? Ambos são idólatras!”
Então, por que D-us redimiu o povo? Qual foi o nosso mérito salvador?
Em duas palavras: conduta futura. D-us viu a conduta futura dos israelitas, como eles marchariam até o Sinai, aceitariam Sua Torah e a observariam por milhares de anos dali em diante. Com base nessa promessa de comportamento exemplar, os judeus conquistaram sua saída do Egito.
Criação e Êxodo: Magnanimidade Baseada na Conduta Futura
Ao refletirmos sobre isso, vemos que a história da Criação traz exatamente o mesmo tema. Afinal, antes da criação, não poderia haver nada nem ninguém digno de ser criado. Então, por que D-us concedeu tamanha bondade a nós, criaturas humildes, e nos fez o favor de trazer-nos à existência?
Assim como no Êxodo, isso se baseou na conduta futura. Naqueles momentos anteriores à Criação, D-us (por assim dizer) vislumbrou o mundo que viria a existir e o grande valor que seus habitantes conquistariam ao longo de sua trajetória. Isso foi suficiente para que Ele prosseguisse com o plano e trouxesse à existência este vasto e belo universo. E é por isso que o Shabat aparece no início da lista de festividades, pois todas elas afirmam a mesma coisa: que D-us está pronto para conceder bondade às Suas criaturas, não apenas com base no desempenho passado, mas também nas promessas futuras.6
O Futuro Começa Agora Mesmo
Essa é uma ideia extremamente revigorante. D-us não ama você nem o trata apenas com base no seu desempenho atual ou no seu histórico. Ele está disposto a tratá-lo com base em como você se comportará no futuro.
É muito fácil sentir-se sobrecarregado pelo próprio passado. Digamos que você não seja exatamente o próximo Moshe ou a próxima Sara e que, sendo honesto consigo mesmo, seu histórico esteja bastante manchado. Pensar em quem você é e em todos os erros que cometeu pode ser deprimente. “Como posso esperar uma vida melhor? Como posso imaginar que mereço algo bom, quando sei que, na verdade, não mereço?”
Embora tais pensamentos possam parecer nobres e de uma honestidade brutal, na maioria das vezes eles servem apenas para colocá-lo para baixo. Afinal, por que tentar ser melhor se você não merece algo melhor? Deixe a vida simplesmente seguir seu curso natural, e “será o que tiver de ser”.
Esse tipo de pensamento não faz bem a ninguém. Pense nos judeus no Egito: eles também não mereciam, mas D-us os tirou de lá mesmo assim. Não porque Ele tenha verificado a ficha corrida de cada judeu no Egito e encontrado alguma qualidade redentora (não havia nenhuma). Nada disso. Os judeus não mereciam a redenção, de forma alguma.
No entanto, D-us foi generoso, amoroso e incrivelmente redentor. Porque Ele acreditava nos judeus que estava prestes a redimir. Ele acreditava que, em algum momento futuro, eles seriam extraordinários.
Você também pode ser extraordinário. Começando agora mesmo. E é com isso que D-us realmente se importa. Coisas boas o aguardam, pois o seu futuro começa agora.7
Notas de rodapé
1. Números 28:9-10.
2. Essa questão é levantada no Midrash; veja Yalkut Shimoni, Torah 643:23.
3. Zohar Chadash, início da Parashá Yitró.
4. Veja Tanya, cap. 31.
5. Shemot Rabbah 21:7.
6. Assim, quando erguemos nossas taças de vinho durante o Kidush do dia de Shabat, proclamamos: “Como uma recordação do Êxodo”. Muitos perguntam: o que exatamente no Shabat recorda o Êxodo? Bem, a resposta é simples: no Shabat, relembramos como D-us foi bondoso ao contemplar nosso desempenho futuro e criar um mundo belo. Isso, de fato, celebra a majestade do Êxodo, quando D-us resgatou um povo que não o merecia — não com base em seus méritos presentes, mas nos futuros.
7. Este ensaio baseia-se em Be’er Mayim Chayim, Números 14:19.

