De onde você vem

Mário Moreno/ julho 10, 2026/ Teste

E os Filhos de Israel partiram de Ramsés e acamparam em Sucot. E partiram de Sucot e acamparam em Etam, que fica na extremidade do deserto…” (Nm 33.5-6).

E Ia´aqov saiu de Beer-Sheva e foi para Charan…” (Gn 28.10) Rashi indaga: “Bastaria ter escrito apenas que ‘Ia´aqov foi para Charan’. Por que mencionar a sua partida? Isso nos ensina que, quando um “Tzadik” (justo) deixa um lugar, ele deixa uma marca.” Por que a Torá nos relata, sobre cada uma das 42 jornadas no deserto, que eles partiram de A para ir a B e, depois, de B para ir a C? Esses locais ficavam no deserto. Eram — e permaneceram — regiões inexploradas. Sobre quem haveria para causar alguma impressão? Ainda assim, talvez possamos aplicar a essência dessa mesma resposta aqui. De que maneira?

Imagine um estudante de medicina iniciando seu estágio prático como médico. Ele começará sua carreira como alguém que cuida e cura. Ele exercerá a medicina — ainda que sob supervisão, até dominar quase completamente esse ofício delicado. Ele não entrou na residência — a etapa seguinte — do nada; antes, precisou aprender e levar consigo, para esse novo desafio, as lições acumuladas nas etapas anteriores.

Foi o meu primeiro emprego de verdade, aquele que contava para o currículo, logo após a faculdade. Eu trabalhava em uma escola financiada pelo governo federal no Bronx, atendendo cerca de 80 jovens porto-riquenhos que haviam abandonado o ensino médio. Nossa missão era ajudá-los a obter o diploma de equivalência do ensino médio (GED) e adquirir alguma experiência profissional. Com frequência, eu convidava personalidades da comunidade para visitar a escola, contar suas histórias e transmitir esperança e inspiração aos alunos. Um homem negro, elegante e bem-vestido — que recebia alguns de nossos alunos para trabalhos voluntários —, recusou-se a ir à escola para conhecê-los; em vez disso, insistiu que nos encontrássemos no Metropolitan Museum of Art, em Manhattan. Assim, organizamos dois ônibus para uma manhã de terça-feira; minha vida estava prestes a mudar, e eu não fazia a menor ideia do que me aguardava.

Ao chegarmos, ele nos conduziu por um roteiro predefinido, mostrando-nos, em particular, obras de arte espanholas, indígenas e negras. Depois, todos nos sentamos no chão de mármore dos saguões solenes do Metropolitan Museum of Art; ele se posicionou atrás de uma estante de regente e, com a entonação de um pastor batista, começou a proferir um sermão cuidadosamente elaborado: “A razão pela qual os trouxe aqui e lhes mostrei esses três tipos de arte — das culturas espanhola, indígena e negra — é que a identidade porto-riquenha é uma rica mistura das três. Sei que, às vezes, uma pessoa se olha no espelho e o lado indígena não gosta do lado negro que existe nela, nem do lado espanhol; há partes de nós que estão fragmentadas e em conflito com outras partes.” “Como podemos fazer as pazes com o mundo se ainda não fizemos as pazes conosco mesmos? Para saber para onde você vai na vida, precisa saber de onde vem!”

Então, ele se virou para mim e declarou: “O Bobby aqui, ele sabe de onde vem. Ele é filho de Avraham! CERTO?” Senti-me como o Bambi numa rodovia, com os faróis de um carro vindo em minha direção. Naquele momento de tensão, resgatei uma lembrança da 4ª série da escola judaica — algo sobre Avraham e Sara — e concordei publicamente: “SIM!”

Corri para casa e encontrei a Bíblia em inglês do meu Bar Mitzvah. Folheei-a e encontrei a história de um homem chamado Avram, aos 75 anos, e de uma mulher chamada Sarai, que era estéril e incapaz de ter filhos. Eles teriam sido facilmente eleitos, na época da escola, como os menos propensos a chegar ao século XX ou XXI; e, no entanto, aqui estou eu — seu tataraneto — 3.700 anos depois, refletindo sobre eles. Avancei algumas páginas e os vi praticando atos extraordinários de bondade. Aquilo despertou em mim o desejo de saber mais. Eu sabia que, se descobrisse mais sobre eles, saberia mais sobre mim mesmo e sobre a minha missão neste mundo. Isso me levou a buscar respostas com um entusiasmo renovado. Aquela frase acabou mudando o rumo de toda a minha vida: “Para saber para onde você vai na vida, precisa saber de onde vem”.

Tradução: Mário Moreno.

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