A Alegria da Mitzvá

Mário Moreno/ agosto 26, 2026/ Artigos

Sempre houve filhos que não seguiram os passos religiosos de seus pais e que se afastaram do caminho da Torah (saíram do “derech”). É algo triste e trágico que causa imensa angústia à família — às vezes por motivos justos e, outras vezes, por motivos nem tão justos assim. E, embora sempre tentemos identificar a causa específica disso, a verdade é que nunca temos certeza absoluta. Pode haver razões que nem sequer conseguimos enxergar, talvez até ligadas a vidas passadas.

No entanto, existe um denominador comum. Nunca ouvi falar de alguém que tenha abandonado o “Yiddishkeit” (o modo de vida judaico) enquanto desfrutava dele com alegria. Os seres humanos tendem a gravitar em torno daquilo que lhes traz alegria, chegando a sacrificar outras coisas para prolongar essa sensação. E a verdade é que a Torah já nos revelou isso na “parashá” (leitura semanal) desta semana.

Há 98 maldições na “parashá” desta semana. Pode parecer que elas são consequência de se afastar da Torah — e, de fato, são —, mas não exatamente da maneira que imaginamos. Na geração do Holocausto, muitos judeus seculares vinham de famílias seculares, com pouco ou nenhum acesso às informações necessárias para despertar e realizar a “teshuvá” (o retorno espiritual).

Talvez nem todos se enquadrassem tecnicamente na categoria de “tinok shenishba” — alguém criado fora do judaísmo, como uma criança que nem sequer sabe que é judia —, mas certamente estavam muito próximos dessa condição. Quando somamos a isso a pobreza extrema, o antissemitismo terrível daquela época e um mundo de oportunidades em rápida transformação, torna-se difícil imaginar que qualquer um deles percebesse a importância de retornar às suas raízes judaicas.

Na “parashá” desta semana, a Torah faz uma afirmação que precisamos considerar seriamente. Ela diz que todas as maldições recairão sobre o Povo Judeu porque:

…vocês não serviram a D-us, o seu D-us, com alegria e contentamento de coração, quando [tinham] abundância de tudo. (Dt 28.47)

Em outras palavras, a Torah aponta diretamente para o verdadeiro problema; e esse problema começou enquanto as pessoas ainda serviam a D-us e cumpriam as “mitzvot” (os mandamentos), apenas não o faziam com alegria. Pois, como todos sabemos e a história comprova, não demora muito para deixarmos de servir a D-us completamente.

A Guemará diz que “a Shechiná não repousa [sobre alguém] devido à tristeza, preguiça, riso, frivolidade, conversa ociosa ou tagarelice, mas sim devido à alegria de uma “mitzvá”” (Shabat 30b).

Então, o que estamos ensinando aos nossos filhos? O que estamos ensinando a nós mesmos se não sabemos como extrair o máximo prazer ao cumprir uma “mitzvá”? Assim como o mandamento de amar a D-us é um mandamento para fazer aquilo que resultará no amor a D-us, o mandamento de servir a D-us com alegria é um mandamento para parar e descobrir o que, na realização das “mitzvot”, deve nos proporcionar alegria — alegria verdadeira.

Pois, se formos realmente honestos conosco mesmos, grande parte da alegria que as pessoas sentem ao cumprir “mitzvot” surge depois que a tarefa termina; é aquela sensação de: “Bem, ainda bem que acabou e cumpri minha obrigação”. Essa não é uma alegria falsa, mas não é aquela de que a “parashá” trata, pois não é o tipo de alegria que manterá nossos filhos — e muitos adultos também — no caminho certo (“derech”).

Pois não devemos esquecer: D-us nos deu as “mitzvot” para o nosso benefício, não para o d’Ele. É claro que Lhe proporcionamos alegria ao sermos obedientes. Mas Lhe damos ainda mais alegria quando mostramos que compreendemos — que entendemos como elas visam ao nosso bem e sabemos como acessar a essência da “mitzvá” para nos elevar e inspirar.

Se você já ama as “mitzvot” e mal pode esperar para cumprir a próxima, você é abençoado. Se o ponto alto do seu dia é conversar com D-us e você busca qualquer oportunidade para isso — não para resolver um problema, corrigir uma questão ou ganhar mais sustento (“parnassá”), mas simplesmente para estar conectado ao seu Pai Celestial —, então você compreendeu a essência; que sorte a sua.

Caso contrário, há algo que não está muito certo na sua compreensão da Torah e na sua valorização da dádiva de possuir as “mitzvot”. E isso é algo que cada um de nós deve levar a sério e dedicar o tempo necessário para resolver. Além disso, se você é professor, deve fazer de sua prioridade não apenas educar, mas inspirar e ensinar as crianças a encontrar a alegria inerente às “mitzvot”. Não para o benefício de D-us, mas para o nosso e para o de todas as gerações que esperamos que sigam os nossos passos, assim como nós tentamos seguir os passos de D-us.

Tradução: Mário Moreno

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