A Única Mitzvá que Você Nunca Pode Planejar Cumprir
A Mitzvá de Deixar o Feixe Esquecido (“Shikchah”)
Entre as 613 “mitzvot” (mandamentos) da Torah, há uma que se destaca. Enquanto a maioria das “mitzvot” é realizada intencionalmente — acender as velas de Shabat, dar “tzedaká” (caridade), estudar a Torah —, a “mitzvá” de “shikchah”, deixar o feixe esquecido, nunca pode ser cumprida propositalmente. É uma “mitzvá” que nasce do esquecimento:
Quando colheres a tua colheita no teu campo e esqueceres um feixe no campo, não voltarás para buscá-lo; ele ficará para o estrangeiro, o órfão e a viúva, para que o Senhor, teu D-us, te abençoe em tudo o que fizeres.1

Mesmo que o agricultor pegue o feixe esquecido e o processe em farinha ou pão, ele ainda deve entregá-lo aos pobres. O produto esquecido já não é mais dele — pertence aos necessitados.
A “mitzvá” estende-se também a outros produtos:
Quando sacudires a tua oliveira, não colherás o que restar [tirando todos os frutos] depois de ti; ficará para o estrangeiro, o órfão e a viúva.
Quando colheres as uvas da tua vinha, não farás a rebusca [não colherás as sobras] depois de ti; ficará para o estrangeiro, o órfão e a viúva.2
Vale ressaltar que a Torah promete uma recompensa por esse ato: deixar o produto esquecido atrai a bênção Divina sobre os esforços da pessoa. Os Sábios explicam que a “mitzvá” de “shikchah” (assim como as doações relacionadas de “pe’ah” — deixar a extremidade do campo — e “leket” — deixar as espigas caídas) ajuda a cultivar a empatia e a generosidade. Se D-us o abençoou com uma colheita farta, em vez de acumular tudo, você deve compartilhar com os menos afortunados. Isso treina a pessoa para ser generosa.
Abaixo, exploraremos alguns dos detalhes dessa “mitzvá” singular.
Ela faz parte das 613?
As autoridades rabínicas divergem sobre como incluir “shikchah” na contagem das 613 “mitzvot”. Maimônides e o “Sefer Hachinuch” consideram o ato de deixar para trás o feixe esquecido como um mandamento positivo (“mitzvah” positiva),3 e o ato de não buscá-lo de volta como um mandamento negativo (“mitzvah” negativa).4 No entanto, o “Baal Halachot Gedolot” lista os casos de cereais, vinhedos e oliveiras como três mandamentos positivos distintos.5 O “Sefer Mitzvot Katan” não inclui a “shikchah” na contagem de forma alguma, sustentando que ela se enquadra no mandamento mais amplo de sustentar os pobres.
Independentemente disso, a “halachá” é clara: esquecer produtos da colheita e deixá-los para os pobres cumpre um mandamento positivo, enquanto retornar ativamente para recuperar o que foi esquecido viola uma proibição.
A que se aplica?
O mandamento da “shikchah” aplica-se não apenas aos feixes de cereais colhidos, mas também aos talos ainda no campo (“kama”). Se parte da plantação for esquecida e não colhida, ela pertence aos pobres. Isso deriva do versículo “no campo”,6 que inclui não apenas os feixes já reunidos, mas também os cereais ainda no pé.7
Além disso, a “shikchah” aplica-se não apenas a cereais e produtos semelhantes, mas também a árvores frutíferas. A expressão “depois de ti”, no versículo “…não o despojarás [colhendo todos os seus frutos] depois de ti”,8 é entendida como referindo-se a frutos esquecidos deixados para trás. Assim como a Torah instrui “não voltes para buscá-lo” em relação aos cereais, o mesmo se aplica às árvores: qualquer coisa deixada para trás deve ser reservada para os pobres.
Quantos feixes contam como “shikchah”?
O mandamento da “shikchah” aplica-se quando apenas um pequeno número de feixes é esquecido. Mas o que é considerado pequeno? Os Sábios discordavam:
Beit Hillel determina que, se um agricultor esquecer dois feixes, isso constitui “shikchah” e deve ser deixado para os pobres. Mas, se ele esquecer três, isso não é considerado “shikchah”. O mesmo se aplica a outros produtos: duas pilhas de azeitonas colhidas, duas pilhas de alfarrobas ou dois feixes de talos de linho — estes constituem “shikchah”. Mas, se três forem esquecidos, não constituem.
Beit Shammai discorda. Na visão deles, mesmo três feixes esquecidos são considerados “shikchah”; apenas se quatro ou mais feixes forem esquecidos é que a “mitzvah” deixa de se aplicar.9
A lei segue a opinião de Beit Hillel: dois feixes constituem “shikchah” (espigas esquecidas), mas três não.
Um feixe grande demais para ser esquecido
Se um feixe esquecido for excepcionalmente grande — contendo o volume de duas “se’ah” (uma medida bíblica considerável) —, ele não é considerado “shikchah”. Essa regra aplica-se mesmo que todos os feixes do campo tenham esse tamanho.
Por quê?
Duas explicações são apresentadas:
A Torah declara: “Quando colheres a tua colheita… não voltarás para buscá-lo.”10 As palavras “não voltarás para buscá-lo” implicam algo que pode ser carregado em um único movimento. Um feixe de tamanho normal pode ser levantado de uma só vez para o ombro, mas um feixe excessivamente grande, de duas “se’ah”, não pode. Visto que não pode ser levantado e levado em uma única viagem, ele é excluído da categoria de “shikchah”.11
Outros baseiam a distinção na expressão “e esqueceres um feixe (“omer”).” Um fardo enorme de duas “se’ah” já não é considerado um “omer” — um feixe —, mas sim um “gaddish”, uma pilha cheia. A lei de “shikchah” aplica-se apenas a um feixe típico, não a uma pilha.12
É importante notar também que, se os feixes esquecidos estiverem unidos ou depositados juntos, são considerados uma única unidade, e as leis de “shikchah” não se aplicam, uma vez que o tamanho total provavelmente excederia o limite.
Quem deve esquecer?
A Torah diz: “sua colheita… e você esquecer”13, sugerindo que o proprietário do campo — aquele responsável pela colheita — deve ser quem esqueceu. Se os trabalhadores esquecerem um feixe, isso não conta como “shikchah”.
Por outro lado, se o proprietário do campo esquecer o feixe, mas os trabalhadores estiverem cientes dele, isso também não é considerado “shikchah”. O versículo especifica: “quando você colher e esquecer”, indicando que a pessoa que está realmente realizando a colheita deve ser aquela que esquece.
E se os trabalhadores esquecerem um feixe, e o proprietário do campo inicialmente se lembrar dele e apenas mais tarde o esquecer? A lei depende de onde o proprietário está naquele momento:
Se ele estiver na cidade e disser: “Eu sei que meus trabalhadores esqueceram um feixe no campo”, mas depois ele mesmo o esquecer — isso é “shikchah”.
Mas se ele estiver no campo quando isso aconteceu e depois esquecer, não é considerado “shikchah”.14
A diferença baseia-se na redação da Torah: “e você esquecer um feixe no campo”. Os sábios entendem que, no campo, o esquecimento deve ser completo desde o início. Mas, na cidade, mesmo que ele se lembre inicialmente e só mais tarde o esqueça, ainda assim conta como “shikchah”.
Quando e onde se aplica este “mitzvah”?
De acordo com a Torah, todas as doações agrícolas para os pobres — como “pe’ah” (deixar a extremidade do campo), “leket” (deixar espigas individuais esquecidas) e “shikchah” — aplicam-se apenas na Terra de Israel. Isso deriva de versículos como: “Quando você colher a colheita da sua terra”.15
No entanto, o Talmud explica que o “mitzvah” de “pe’ah” também deve ser observado fora de Israel por decreto rabínico. Com base nisso, Maimônides e autoridades posteriores estendem o mesmo princípio a todas as outras doações agrícolas para os pobres. Na Diáspora, são obrigações rabínicas.16
O Código da Lei Judaica estabelece que, se não houver pobres judeus em uma determinada área, não há obrigação de deixar essas dádivas, uma vez que o objetivo delas é sustentar membros necessitados da comunidade.17
Mitzvot Além da Escolha
Esta “mitzvah” é singular por não poder ser cumprida mediante escolha ou intenção humana, mas apenas sem que a pessoa tenha consciência disso. O Rabino Schneur Zalman de Liadi explica que a maioria das “mitzvot” está ligada à vontade humana, pois sua raiz espiritual reside na vontade suprema de D-us. No entanto, as “mitzvot” que não dependem da escolha humana provêm de um nível que transcende a própria vontade, da “luz circundante” (“makif”) Divina. Isso guarda paralelo com a ideia expressa no Hassidismo de que o “desejo” de D-us de criar uma morada nos reinos inferiores está além da razão e além da vontade.
Uma “mitzvah” baseada no intelecto atrai a sabedoria Divina. Uma “mitzvah” que envolve nossa vontade atrai a vontade de D-us. Mas uma “mitzvah” que transcende a vontade humana conecta-se a um nível superior à própria vontade.18
O Rebe aprofunda esse conceito, explicando que ele também se aplica quando um judeu influencia outro. O sucesso de tais esforços não depende do desejo de quem estende a mão, mas da disposição do outro em ouvir e aceitar. Assim, ajudar outro judeu em questões espirituais acessa esse mesmo nível “além da vontade”.
Além disso, ajudar outro judeu é uma forma de caridade espiritual que, assim como a “shikchah”, depende do fato de que, muitas vezes, você está alcançando alguém cuja centelha Divina está em um estado de “esquecimento” — oculta ou latente. Ao despertá-la, você eleva essa centelha esquecida e a traz de volta à vida.19
Notas de rodapé
1. Deuteronômio 24:19.
2. Deuteronômio 24:20-21.
3. Sefer HaMitzvot, Mitzvah Positiva nº 122. Sefer Hachinuch nº 592
4. Mitzvá Negativa nº 214; Sefer Hachinuch nº 593
5. Halachot Gedolot, Mandamentos Positivos 52, 57 e 59
6. Deuteronômio 24:19.
7. Talmude, Sotah 44a.
8. Deuteronômio 24:20.
9. Mishná Peah 6:5.
10. Deuteronômio 24:19.
11. Sifrei Deuteronômio, seção 223.
12. Talmude de Jerusalém, Peah 5:5.
13. Deuteronômio 24:19.
14. Mishná Peah 5:7.
15. Levítico 19:9.
16. Mishnê Torah, Matnot Aniyim 1:14
17. Yoreh De’ah 332:1
18. Likkuei Torah, Vezot Habrachá.
19. Torat Menachem, 5745, vol. 1, p. 559.
Tradução: Mário Moreno

