Acima e Abaixo
No Shabat, revela-se um prazer sublime
Ele não viu iniquidade em Ia´aqov, nem viu trabalho penoso em Israel. (Nm 23.21)

…Sabe-se que existem duas percepções de D-us: uma percepção inferior (*daat tachton*) e uma percepção superior (*daat elyon*). Essas duas percepções são aludidas no versículo “D-us é de duas percepções”. Na percepção superior, o “Acima” é algo (em hebraico, *yesh*) e o “Abaixo” é nada (em hebraico, *ayin*). Na percepção inferior, o “Acima” é nada e o “Abaixo” é algo; no entanto, o “algo” do “Abaixo” é percebido como constantemente dependente do Acima para a sua existência. Na percepção superior, contudo, o “Abaixo” é inexistente, tal como ocorre diante da Sua presença bendita.
Dessas duas percepções derivam as duas experiências de transparência diante de D-us: o que é chamado de “anulação do ‘algo'” e “anulação da essência” (em hebraico, *bitul hayesh* e *bitul bietzem*). O primeiro nível de transparência provém de uma percepção inferior, na qual o indivíduo sente que possui uma existência separada de D-us, mas reconhece a sua total dependência d’Ele e, portanto, submete-se a Ele. A percepção superior, por sua vez, dá origem a uma experiência na qual o indivíduo não sente qualquer separação e encontra-se inerente e essencialmente anulado. Esses dois níveis constituem a diferença entre a experiência da oração durante os seis dias da semana — que corresponde ao nível de “Ia´aqov” — e a experiência da oração no Shabat, que se situa no nível de “Israel”.
O Shabat, a glória de D-us… representa a percepção superior e transcendente…
Agora é possível compreender a afirmação do Zohar de que os seis dias da semana são “D-us”, enquanto o Shabat é a “glória de D-us” — como dizemos na oração do Shabat: “os céus proclamam a glória de D-us”. Pois “D-us” representa a percepção inferior, enquanto a “glória de D-us” — que é *makif* (transcendente), visto que a glória envolve a pessoa — representa a percepção superior e transcendente. Assim, a “glória de D’us” (em hebraico, *kevod E-l*) corresponde à *gematria* 63 — o nome *SaG* —, que é também a *gematria* do versículo “Ele é verdadeiramente transcendente” (em hebraico, *kee gaoh ga’ah*).
É possível que seja por essa razão que, no Shabat, não se recitam as 18 bênçãos da Oração em Pé (*Amidá*), mas sim sete bênçãos. As 18 bênçãos correspondem às 18 vértebras da coluna vertebral, através das quais passam a medula espinhal e a “gota” proveniente do cérebro. Essa transmissão ocorre no nível das “costas” e da nuca, o que representa a obstinação. Essa obstinação alude à dificuldade de conceder ao cérebro domínio sobre o coração, conforme explicado em outra parte. A coluna vertebral representa o “Conhecimento Inferior” (*Daat Tachton*), que se divide em *Chesed* e *Gevurá* — amor e temor. Esse é o nível em que a existência material é vivenciada como algo separado da realidade divina, exigindo-se uma força excepcional para superar e anular o *yesh* (a sensação de existência própria/ego).
Esse é o conceito de unificação através do beijo…
Tudo isso se refere à oração dos dias úteis, quando as 18 bênçãos são recitadas. No Shabat, porém, quando se revela a percepção do Conhecimento Superior (*Daat Elyon*) — estado em que tudo é nada diante d’Ele —, todos os pensamentos estranhos são automaticamente neutralizados. Então ocorre a revelação do prazer supremo, que é o nível de *Atik*; este é um estado de “face” e não contém, de forma alguma, um aspecto de “costas”. O *Daat Tachton*, por sua vez, é chamado de “conhecimento entre os ombros” — o nível das costas —, de onde se origina a coluna vertebral.
E esse é o conceito de unificação através do beijo, que deriva do *Daat Elyon* e constitui um ato espiritual realizado face a face. A unificação física, contudo — na qual a “gota” é conduzida através da coluna vertebral, ou seja, das costas —, deriva do *Daat Tachton*. É verdade que mesmo essa unificação ocorre face a face, mas a unificação do beijo, sendo espiritual, não envolve de modo algum as costas.
Ora, o beijo corresponde ao nível do sopro, e existem sete sopros, que derivam dos sete nomes de *SaG*. Assim, há sete palavras no versículo “Beija-me com os beijos da tua boca” (Ct 1.2). E o sopro é superior à fala, visto que o sopro do coração é *Keter* da *Nukva*, conforme explicado em outra parte. Portanto, o beijo expressa a intensidade de um amor que não pode ser expresso em palavras. Ora, o Shabat — que corresponde ao nível de Israel — é a *Nukva* de *Z”A* (Zeir Anpin), a qual recebe do Israel superior. E sua unificação primordial ocorre por meio do beijo, que é de natureza espiritual. Por isso, no Shabat não se recitam as 18 bênçãos que correspondem à coluna vertebral — o que conotaria uma união física —, mas sim sete bênçãos, correspondentes aos sete sopros.
O beijo expressa um amor que não pode ser expresso em palavras…
Na verdade, o Talmud afirma que, essencialmente, dever-se-ia recitar as 18 bênçãos no Shabat, e que foi apenas em consideração ao *kevod Shabat* (a glória do Shabat) que os sábios não quiseram sobrecarregar o fiel. O significado mais profundo dessa afirmação talmúdica é que o Shabat também é um momento apropriado para a união física, mas uma união vivenciada em um nível muito mais elevado. Como explicado em outra parte, embora a união através do beijo seja espiritual, existe, contudo, uma vantagem na união física, uma vez que a gota incorpora a essência e o ser do cérebro. O mesmo não ocorre no caso da união pelo beijo, onde está presente apenas um raio do doador. É possível que, pelo fato de a gota conter a essência, ela deva, portanto, percorrer o caminho pelas costas. Assim, o Shabat também é um momento apropriado para a união física de Israel e Raquel.
Dessa forma, nossos sábios afirmam que, essencialmente, deve-se recitar 18 bênçãos no Shabat, uma vez que a gota percorre as 18 vértebras. Apesar disso, o Shabat está associado à “face”, pois a união espiritual do beijo é então atraída para a união física. Portanto, devido à glória do Shabat, basta recitar sete bênçãos correspondentes ao nível do beijo, as quais se difundem e influenciam a união física.
Explicamos anteriormente que a oração dos dias úteis corresponde ao nível de Ia´aqov, enquanto a oração do Shabat corresponde ao nível de Israel. Sobre isso, o versículo declara: “Ele não percebeu iniquidade em Ia´aqov, nem viu trabalho penoso em Israel” (Nm 23.21). Durante a semana — o tempo de Ia´aqov —, é preciso lutar contra pensamentos estranhos e contra as vestimentas de *kelipat nogá*. É então que “Ia´aqov” (em hebraico, *Ia´aqov*, que remete à letra *yud* — “calcanhar”) deve atrair o *yud* (a anulação de *chochmá*) para o “calcanhar”. Sobre isso, diz-se: “Ele não percebe iniquidade em Ia´aqov…”. Contudo, embora não haja iniquidade, existe grande esforço e luta do corpo e da alma, pois, como diz o Zohar: “o momento da oração é o momento da guerra”. Tudo isso ocorre durante a semana, quando o poder da contração é intenso. Durante a oração do Shabat, porém, quando o prazer sublime se revela, não há luta. Sobre isso, diz-se: “…e Ele não viu trabalho penoso em Israel…”.
Tradução: Mário Moreno.

