Casas ou famílias?
A parashá desta semana narra o dramático motim contra Moshe, liderado por seu carismático primo, Korach. Por mais importante que Moshe fosse, Korach conseguiu atrair centenas de seguidores e representou um sério desafio à autoridade de Moshe e Arão.

Korach era um membro poderoso e aristocrático da tribo de Levi; um homem com ambições desmedidas. Mas seu desafio provou-se inútil. Moshe foi vindicado e, num milagre evidente, Korach e seus seguidores mergulharam no esquecimento:
E a terra debaixo deles abriu a sua boca e os engoliu, a eles e às suas casas, e a todo o povo que estava com Korach e a todos os seus bens. Eles e tudo o que possuíam desceram vivos à sepultura; a terra os cobriu e desapareceram da assembleia.
Curiosamente, a Torah menciona “suas casas”. Existiam realmente casas no deserto? O povo era nômade, montando e desmontando acampamentos regularmente. Não havia como eles terem casas de verdade, de tijolos e argamassa, ou mesmo cabanas de madeira. Certamente, como andarilhos no deserto, tudo o que poderiam ter usado como abrigo seriam tendas simples que pudessem montar e desmontar em suas viagens. No entanto, a Torah usa a palavra “casas”.
De acordo com o comentarista bíblico Ibn Ezra, “casas” não deve ser interpretado literalmente. Não significa uma “casa”, mas “família”, ou seja, o lar de alguém. Em suas próprias palavras, “casa” é “um termo amplo para esposa, filhos e crianças pequenas”.
Permita-me sugerir humildemente uma interpretação alternativa: aos olhos do arrogante Korach, sua pequena tenda deve ter parecido uma mansão imponente, um palácio de suas próprias ilusões de grandeza.
Korach contestou a autoridade do maior profeta de todos os tempos, o homem que Deus pessoalmente enviou para atingir o Egito com 10 pragas, dividir o mar e trazer a Torah ao povo. Certamente, Moshe deveria estar acima de qualquer contestação, reprovação ou mesmo crítica. No entanto, Korach argumentou abertamente contra a liderança de Moshe. Somente alguém com tamanha audácia e egoísmo poderia imaginar que sua frágil tenda fosse uma casa real e sólida.
Casa ou Lar?
Que diferença entre a visão de mundo de Korach e a da Torah! Como enxergamos nossas casas? Vemos apenas o exterior — residências físicas com telhados e paredes — ou estamos em contato com o lar interior, o propósito espiritual mais profundo de uma casa? Nossos lares são íntimos e pessoais, ou são apenas lugares de arquitetura, móveis e aparelhos eletrônicos? Estamos fixados no brilho superficial, ou entendemos que o lar é um refúgio seguro, um santuário para nossa família e um lugar de amor, segurança e proteção para criar a próxima geração?
Temos casas ou famílias? Nossa casa é, de fato, um lar?
Trazendo a Educação para Casa
Quando nossos filhos estavam crescendo aqui na África do Sul, minha esposa frequentemente abria mão de comprar roupas novas ou desfrutar de outros confortos e comodidades para enviá-los a Nova York para ver o Rebe, visitar seus avós e conhecer sua família. Olhando para trás, me maravilho com seus princípios virtuosos e profunda perspicácia.
Neste Shabat, comemoraremos Gimmel Tamuz, o yahrzeit de nosso reverenciado Rebe. Em mais de 40 anos ensinando e educando, o Rebe abordou praticamente todos os assuntos imagináveis. Espaço, filosofia, política, medicina e moral, até mesmo esportes – compartilhando lições de vida do futebol e do beisebol para ensinar crianças – nenhum tópico estava além de seu alcance e atenção.
Mas se eu tivesse que escolher um tópico que acho que o Rebe abordou com mais frequência do que qualquer outro, eu votaria em chinuch, educação, e a necessidade de fornecer a todas as crianças judias, não apenas às nossas, uma sólida educação judaica.
Ele também foi além da comunidade judaica. Seu apelo repetido para que estudantes de todas as crenças fossem educados com um sistema de valores morais e éticos foi ouvido com clareza e em alto e bom som em Washington, e levou à proclamação do Dia Nacional da Educação e Partilha, celebrado anualmente em seu aniversário.
Por favor, D-us, em todas as nossas construções, nos concentraremos em nossos lares e famílias, inspirando nossos filhos por gerações vindouras.
Tradução: Mario Moreno.

