Comunicação Divina
“NO PRINCÍPIO, D-us criou os céus e a terra.” Que afirmação modesta e INCRÍVEL. É como dizer, sobre a maior confeitaria do mundo: “Eles fizeram alguns bolos hoje”. Quero dizer, basta olhar para o mundo ao seu redor e, quando terminar de usar apenas os olhos, usar um microscópio para olhar para dentro e um telescópio para olhar para fora. Depois de recuperar o fôlego, releia o primeiro versículo e diga-me se ele não conta a história toda.

E isso falando apenas da Criação física, que é, na verdade, bem pequena e comum em comparação com o vasto mundo espiritual que ela oculta. Nosso universo é como aqueles globos de neve com um mundo intrincado em seu interior — grande para quem está dentro, mas minúsculo comparado ao mundo lá fora. Fisicamente, estamos na base da hierarquia espiritual chamada “Asiyah”. Existem outros quatro mundos, exponencialmente maiores, além do nosso.
São apenas palavras, certo? Não é como pegar um elevador até o topo de um arranha-céu de cem andares e contemplar a vista de tirar o fôlego. Seus olhos conseguem ver isso. Seu cérebro consegue processar isso. A vista do “topo” de que falamos é algo em direção ao qual você só pode subir com a mente. Você só consegue vê-la com os olhos da mente. Mas, quando você o faz — se assim decidir —, garanto que a “vista” é ainda mais impressionante do que olhar para baixo do alto de cem andares.
Dovid HaMelech escreveu:
Isto vem de D-us; é algo maravilhoso aos nossos olhos. (Sl 118.23)
Mas será que tudo não vem de D-us, e não apenas as coisas maravilhosas? Claro que sim. Então, o que Dovid HaMelech está nos dizendo? Que, quando deixamos de ver tudo como algo que vem de D-us, é porque deixamos de ver a vida como algo maravilhoso, tendo nos acostumado ao milagre da vida.
O Rambam fez alusão a essa verdade indispensável para a vida em sua “halachá” sobre o temor a D-us.
Qual é o caminho para amar e temer a D-us? Quando alguém contempla as ações d’Ele e as Suas criações maravilhosas e grandiosas, e nelas enxerga a Sua sabedoria — que não tem limites nem fim —, imediatamente passa a amá-Lo e louvá-Lo, desejando ardentemente conhecer o Seu Grande Nome. Ao continuar refletindo sobre esses mesmos temas, a pessoa é tomada por um sentimento de reverência e temor, reconhecendo-se como uma criatura ínfima, humilde e limitada, que se apresenta com sua sabedoria frágil e restrita diante dAquele que possui conhecimento perfeito, conforme declarou Davi: “Quando contemplo os Teus céus, obra dos Teus dedos… pergunto-me: o que é o homem para que Te lembres dele?” (Sl 8.4–5). (Yad Chazakah, Yesodei HaTorah, Cap. 2:2)
O verdadeiro amor e o temor a D-us, explica Maimônides (Rambam), não são emoções superficiais, mas níveis alcançados apenas por meio de uma sensibilidade espiritual elevada. É isso que torna a vida mais maravilhosa aos nossos olhos e o amor a D-us mais real em nossos corações. E o aspecto verdadeiramente surpreendente é como meras palavras e pensamentos podem realizar isso, às vezes até melhor do que representações visuais concretas. Uma imagem pode valer mais que mil palavras, mas as mil palavras certas podem valer muito mais do que uma imagem.
E sabe por quê? Porque as imagens mostram coisas físicas, mas têm dificuldade em transmitir pensamentos abstratos. Além disso, uma fotografia pode ser enganosa ou carecer de contexto, enquanto uma explicação bem escrita fornece fatos, intenções e a verdade. Por fim, as palavras certas conduzem o leitor a uma conclusão precisa, ao passo que uma imagem deixa margem excessiva para diferentes interpretações pessoais.
Isso tudo é do ponto de vista técnico. Existe também uma razão espiritual importante, ligada à própria história da Criação, embora poucos tenham consciência dela.
É como projetar uma casa. Uma pessoa pode elaborar a planta de uma casa simplesmente porque se sente bem ao viver nela. Ela pode ser elegante, bonita e até parecer luxuosa. Se lhe perguntassem: “Por que você a projetou dessa maneira ou com esses elementos?”, a resposta seria simplesmente: “Porque gosto dela assim”. Ou então, uma pessoa pode projetar uma casa destinada a transmitir sua filosofia de vida. Quem faz isso precisa comunicar ao arquiteto o que pensa e qual a melhor maneira de materializar essa ideia no projeto da casa. Cada detalhe da residência deve ser pensado e concebido para garantir que a mensagem pretendida seja transmitida. Uma casa assim não serve apenas para ser admirada e apreciada, mas também para ser estudada e analisada, oferecendo lições valiosas.
Foi assim que D-us criou o mundo: como um meio de comunicação divina. Cada detalhe da Criação — de um micróbio a uma estrela gigantesca, muitas vezes maior que a Terra — existe e funciona da maneira que o faz para nos revelar algo sobre o seu Criador, o nosso Criador, e sobre o propósito da vida. Aplicar a engenharia reversa à Criação, tal como fez Avraham Avinu em sua época, revelará a você D-us e o Seu mundo oculto de sabedoria infinita.
É como abrir uma porta aparentemente simples e descobrir um antigo depósito repleto de tesouros imensos. Embora seus olhos vejam tudo, seu cérebro terá dificuldade em assimilar a experiência, pois não estava preparado para o que encontrou. Dizer que se sente apenas “maravilhado” é pouco para descrever tal cenário.
Essa é a Criação. Ela é um antigo depósito de riqueza intelectual inimaginável, oculto por trás de uma porta simples e discreta que chamamos de realidade cotidiana e comum. Aprenda a abri-la e você não apenas ficará profundamente maravilhado, mas também será convidado a uma outra dimensão da realidade, mais semelhante àquela do mundo vindouro.
Tradução: Mário Moreno

