Conte-nos se puder
Na porção desta semana, Hashem desafia seu fiel seguidor Avram a uma tarefa muito difícil.
“Ele o levou para fora e disse: ‘Olhe para os céus e conte as estrelas, se puder.’ Então Elohim disse: ‘Assim serão os seus filhos’” (Gn 15:5).

Hashem diz para contar as estrelas, se puder, e então conclui que assim serão os seus filhos. A que se refere “assim”? Se for uma referência à quantidade de estrelas, por que Hashem disse a Avram para tentar contá-las? Certamente ambos sabiam que era uma tarefa impossível para um ser mortal. Além disso, pela estrutura da frase, parece que a palavra “assim” pode, na verdade, se referir à tentativa impossível de contar as estrelas?
Muitas pessoas presumem que Hashem assegurou a Avram que seus filhos seriam tão numerosos quanto as estrelas, mas essas palavras nunca foram ditas. Afinal, pode haver mais estrelas no céu do que pessoas na Terra! Talvez, então, não seja o número real de estrelas que personifica os judeus, mas a tentativa de contá-las e compreendê-las. A curiosidade e o mistério constantes que envolvem as galáxias são a metáfora para o Povo Escolhido.
O rabino Yosef Weiss, em sua obra recém-publicada, Visões da Grandeza, conta a história de Sam Goldish, um judeu praticante que mora em Tulsa, Oklahoma, e trabalha para o Departamento de Defesa dos Estados Unidos.
Trabalhando em um importante contrato governamental, Sam estava envolvido em um grande projeto que exigia constante supervisão do departamento de defesa. Reunido com uma dúzia de colegas examinando modificações estruturais em um tanque, um dos trabalhadores mencionou que havia um fio pendurado na calça de Sam. Ele se ofereceu para removê-lo, e Sam, com os olhos fixos nos esquemas, assentiu com a cabeça em aprovação. O que aconteceu em seguida foi mais significativo. O colega puxou inocentemente o fio, que não cedeu. Na verdade, outros sete fios se soltaram. O tzitzit de Sam foi revelado. Os trabalhadores, surpresos, soltaram um suspiro de espanto. Eles nunca tinham visto aquele tipo de adorno na roupa.
Durante a hora seguinte, seguiu-se um debate entre uma dúzia de trabalhadores gentios – no coração do cinturão bíblico cristão – sobre se os judeus deviam ou não usar franjas. Cada trabalhador alegava ser uma autoridade em judeus, cada um dizia conhecer a religião e ser versado em seus costumes — contudo, ninguém tinha ouvido falar de tzitzit! Eles se recusaram a retornar à reunião até que Sam lhes mostrou, em uma edição da Bíblia do Rei Jaime que um dos trabalhadores tinha em mãos, exatamente onde na Bíblia estava escrito que os judeus deviam usar franjas nos cantos de suas vestes.
O fascínio pelas pequenas franjas superava em muito o interesse deles pelos tanques mais recentes do exército.
Talvez Mark Twain tenha expressado isso da melhor forma:
“Se as estatísticas estiverem corretas, os judeus constituem apenas um por cento da raça humana. Isso sugere uma tênue e nebulosa nuvem de poeira estelar perdida no brilho da Via Láctea. Teoricamente, o judeu quase não deveria ser mencionado; mas ele é mencionado, sempre foi mencionado. Ele é tão proeminente no planeta quanto qualquer outro povo, e sua importância comercial é extravagantemente desproporcional à pequenez de sua população. Suas contribuições para a lista mundial de grandes nomes na literatura, ciência, arte, música, finanças, medicina e erudição também são desproporcionais à fragilidade de seu número. Ele travou uma luta maravilhosa neste mundo, em todas as épocas; e o fez com as mãos atadas. Ele poderia ser vaidoso, e isso seria desculpado. O egípcio, o babilônico e o persa ascenderam, encheram o planeta de som e esplendor, depois se desvaneceram em sonhos e desapareceram; o grego e o romano o seguiram, fizeram um grande alarde, e eles então partiram; outros povos surgiram e ergueram suas tochas por um tempo, mas elas se extinguiram, e agora eles permanecem no crepúsculo, ou desapareceram. O judeu os viu a todos, os venceu a todos, e agora é o que sempre foi, sem exibir decadência, enfermidades da idade, enfraquecimento de suas partes, diminuição de suas energias, nem embotamento de sua mente alerta e agressiva. Todas as coisas são mortais, exceto o judeu; todas as outras forças passam, mas ele permanece. Qual é o segredo de sua imortalidade?”
D-us assegura a Avram que o interesse em seus parentes rivalizará com a fixação do homem pelos mundos estelares que ele jamais alcançará. A intriga que cerca o judeu é inversamente proporcional ao espaço que ele ocupa no universo. Não importa quão pequeno o brilho do judaísmo possa parecer, civilizações o estudam, sociedades tentam imitá-lo e, por mais perplexas que estejam, algumas nações tentam destruí-lo.
Os proverbiais telescópios Hubble do mundo gentio ficarão igualmente fascinados, fixados e constantemente ocupados no absoluto mistério das luzes imortais e indestrutíveis que cintilam além das nuvens escuras da civilização – os judeus. E embora esses observadores gentios talvez nunca descubram a resposta para nossa imortalidade, nem compreendam a razão de nossa resiliência, uma coisa eles certamente entenderão: nós brilhamos.
Tradução: Mário Moreno.

