Lugar de Honra

Mário Moreno/ setembro 3, 2026/ Artigos

David HaMelech disse: “Uma coisa peço a D-us, que busco… que eu possa habitar na casa de D-us todos os dias da minha vida” (Sl 27.4). São palavras tão belas e um sentimento profundo; chegaram até a compor uma música a partir delas.

A questão é: o que David queria dizer? Ele queria se mudar permanentemente para o “Beit HaMikdash” (o Templo)? Como poderia, se o Templo nem sequer havia sido construído em sua época? Para o “Mishkan” (o Tabernáculo)? Talvez, mas não haveria muito espaço para viver ali se ele tivesse de compartilhar suas acomodações com os “Kohanim” (sacerdotes) oficiantes e com as atividades do serviço do Templo.

A implicação é que, ao falar em “casa”, David não se referia necessariamente a uma estrutura física. Ele se referia ao que o conceito de casa representa: basicamente, um ambiente seguro, protegido do mundo exterior. É isso que uma casa significa para a maioria das pessoas: um refúgio tranquilo contra os perigos do mundo lá fora, sejam eles reais ou imaginários.

No entanto, embora David tivesse motivos para se preocupar com sua segurança, não era isso que o inquietava. Ele não ansiava por uma fortaleza física — algo que ele poderia ter construído —, mas sim por uma fortaleza espiritual; uma fortaleza que o protegesse de todas as forças do mundo que o desviavam de seu verdadeiro desejo: pensar apenas em D-us e trabalhar para se aproximar d’Ele cada vez mais, a todo momento que pudesse.

Além disso, ele não se referia a um único lugar. Ele sabia que era rei e que, nessa condição, tinha responsabilidades e expectativas nacionais a cumprir. Sabia que tinha inimigos — entre os quais acabou figurando seu próprio filho. Passara muito tempo fugindo do exército de Shaul, seu próprio rei, o que o obrigava a desviar o foco de D-us para lidar com sua situação.

Ele também sabia que nada daquilo era obra do acaso, mas sim fruto de “Hashgachá Pratit” — a Providência Divina. As pessoas agiam conforme suas próprias escolhas, mas tudo ocorria segundo o desígnio Divino. Ele compreendia que ninguém poderia planejar ou fazer algo contra ele a menos que D-us o permitisse.

Muitas pessoas, na vida, começam com objetivos espirituais admiráveis. Mas então a vida intervém e os obriga a dividir a atenção entre aquilo em que desejam pensar e aquilo em que prefeririam não ter de pensar. Durante 63 anos, Ia’aqov Avinu mal saiu do “Beit Midrash”, até que a Providência Divina decidiu de outra forma, e ele passou as décadas seguintes distraído com uma questão ou outra.

Assim, a princípio, as pessoas tentam encontrar tempo em meio às suas responsabilidades cotidianas para continuar buscando seus objetivos espirituais, obtendo pouco ou nenhum sucesso. Com o passar do tempo, algumas pessoas ficam tão desgastadas pela vida que deixam seus sonhos espirituais em segundo plano; lá, eles acabam evaporando ao longo dos anos e, por fim, desaparecem completamente.

Era isso que David HaMelech dizia a D-us: “Apesar de tudo o que o Senhor me fez passar, apesar de tudo com que tive de lidar, meu desejo de estar próximo de Ti não diminuiu nem um pouco. Embora a vida tenha feito de tudo para me desgastar e me tornar igual a todos os outros, recuso-me a sucumbir. Meu centro continua sendo o Senhor, e o desejo de estar o mais próximo possível de Ti permanece — mesmo que leve anos para que eu consiga.”

É isso que significa “Escolher a vida para que vivas“, frase que encerra a primeira das “parashiot” (leituras da Torah) desta semana. Significa manter o foco no verdadeiro objetivo da vida; ao fazê-lo, você será capaz de viver no sentido pleno da palavra, mesmo antes de alcançar esse objetivo. D-us quer nossos corações, e os sacrifícios que Lhe agradam são um espírito quebrantado. É bom quando a vida material pode se alinhar à vida espiritual, mas, mesmo quando isso não ocorre, elas se alinham se o coração da pessoa estiver apontando na direção espiritual correta: para D-us.

Teremos bastante tempo para refletir sobre isso em “Rosh Hashaná” e “Yom Kippur”, se D-us quiser (“b”H”). Aproveite ao máximo essa oportunidade. Certifique-se de que, ao iniciar a oração de “Shemoná Esré”, você não esteja, na verdade, afastando-se dela ao permitir-se trilhar um caminho que não conduz a D-us.

Tradução: Mário Moreno.

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