Os Suspeitos de Sempre

Mário Moreno/ julho 16, 2026/ Artigos

A porção desta semana aborda uma série de questões, entre elas a entrada e a conquista da terra de Canaã, que deveriam ocorrer em breve. As terras pelas quais os israelitas passaram em sua jornada para conquistar Canaã eram habitadas por várias tribos e nações: algumas delas Israel tinha permissão para conquistar, enquanto outras terras eram proibidas.

Mesmo ao se aproximarem de Canaã, havia nações que os israelitas foram advertidos a não provocar nem atacar.

Moshe diz ao povo: “Hashem me disse: ‘Não oprimas Moabe, nem provoques guerra contra eles, pois não te darei nenhuma parte de sua terra como herança. Pois dei Ar como herança aos filhos de Ló. Os emins habitavam ali anteriormente, um povo grande e populoso, e alto como os gigantes. Eles também eram considerados refains, como os gigantes; e os moabitas os chamavam de emins’” (Dt 2.10-11).

Parece haver uma discussão importante sobre a terra dos gigantes.

Moshe refere-se aos emins, que vivem na terra destinada a Ló, sobrinho de Abraão. O versículo parece estender-se ao explicar que o povo que ali vive não são refains, mas sim emins — frequentemente chamados de refains por possuírem atributos semelhantes aos dos refains.

No entanto, Moshe explica ao seu povo que esses gigantes não são realmente refains, mas sim emins. Obviamente, todo esse processo de identificação é um tanto confuso. Rashi nos ajuda a entender a questão: “Poderias pensar que esta é a terra dos refains que dei (prometi) a Avraham (Gn 15.20), porque os emins — que são refains — habitavam ali anteriormente (e eles são um dos sete clãs cuja terra vocês deveriam possuir); mas esta não é aquela terra, pois aqueles refains Eu expulsei de diante dos filhos de Ló e estabeleci estes em seu lugar” (cf. Rashi sobre Dt 3.13). Rashi explica que, embora a terra dos Refains tenha sido prometida a Avraham — e, portanto, devesse ser legitimamente herdada pelos judeus —, a terra de Ar não foi prometida a Avraham. Ar foi prometida a Ló. Se os Filhos de Israel esperavam herdar Ar baseando-se no fato de que gigantes chamados Refains viviam lá, Moshe corrige esse equívoco. “Vejam bem”, explicam os comentários, “esses gigantes não são, na verdade, do tipo Refaim. Eles são do tipo Emim. Os Refains originais já haviam desaparecido há muito tempo e sido substituídos. Aos judeus foi prometida a terra dos Refains, e não a dos Emins — que, embora se assemelhem aos Refains e sejam assim chamados, são um povo diferente.”

Na verdade, toda essa classificação, aparentemente irrelevante, deve ter importância para nós, estudantes da Torah. Por que, caso contrário, a Torah dedicaria tanto tempo e espaço a ela? Por que nos alertaria para não confundir os Emins com os Refains? Bastaria dizer: “Mantenham-se longe de Ar; ela pertence a Ló!”

Esta história é verdadeira; alterei os detalhes para poupar as pessoas envolvidas.

Há muitos anos, durante uma onda de calor extremo, um certo fabricante de alimentos foi autuado pelo Departamento de Saúde e pelo USDA devido a uma infestação de uma espécie específica de mariposa em suas instalações de produção.

Imediatamente, a diretoria enviou representantes para inspecionar a fábrica também. Afinal, a presença de insetos na unidade era péssima para os negócios. Além de o governo poder fechar a empresa, eles representavam um risco à saúde! Uma equipe de inspetores foi à fábrica para avaliar como lidar com o problema.

Enquanto percorria a fábrica, um vice-presidente abriu a tampa de um recipiente de castanhas cruas. Como um tornado que se ergue, um enxame de insetos saiu do recipiente. Chocado e consternado, ele chamou um dos funcionários. “Você está vendo isso?” gritou ele. “Olhe para essas moscas!”

“Não se preocupe, senhor”, sorriu o funcionário. “Essas não são as moscas do governo. Essas são as moscas comuns!”

Muitas vezes, encaramos os adversários de uma só vez, generalizando tudo. Um inimigo é um inimigo, ponto final. Um gigante é um gigante, ponto final.

Talvez a Torah nos ensine, com minúcia, que cada nação tem a sua própria realidade e o seu próprio julgamento. Havia alguns povos cujas terras os israelitas podiam herdar. Havia outros que podiam atacar. Havia aqueles que deviam evitar. E havia ainda outros que os israelitas podiam enfrentar, sem, contudo, causar-lhes danos físicos.

Como judeus, devemos ter cuidado para não confundir os emins com os refains, os edomitas com os amonitas — ou os sions, os ogues e até mesmo os Icebergs com os Greenbergs. Podemos até não querer enxergar diferenças em um mundo que prefere ver tudo em preto e branco; no entanto, a Torah nos ensina, nesta semana, que não existem duas nações exatamente iguais. E, por mais altos que pareçam ser, não existem dois gigantes idênticos.

Tradução: Mário Moreno.

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