Quem vem primeiro?

Mário Moreno/ novembro 4, 2026/ Artigos

Há algumas semanas, escrevi sobre Ismael. Na verdade, escrevi sobre sua mãe, e o texto não foi muito gentil com ela. Recebi dezenas de e-mails: alguns elogiando o texto, outros criticando-o por não ser contundente o suficiente e outros, ainda, condenando-o, chegando a sugerir que beirava o racismo.

Hoje, volto a escrever sobre Ismael. Mas, antes que você se prepare para o embate, adianto que não falarei do Ismael bíblico, e sim de seu homônimo: o Rabino Ismael.

Acontece que um dos grandes sábios do Talmud chamava-se Rabino Ismael — um fato que talvez choque nossos leitores mais refinados. De fato, o Talmud está repleto de citações do Rabino Ismael. Mas como ele recebeu esse nome? Afinal, por que alguém daria a seu filho o nome daquele “homem indomável, cuja mão está contra todos, e a mão de todos está contra ele” (Gn 16.11)? As opiniões do Rabino Ismael estão entre as mais significativas de todo o Talmud; contudo, seu nome não parece ser, à primeira vista, um nome rabínico. Ou será que há algo mais sobre Ismael do que realmente sabemos?

A resposta é bastante simples. Ela se baseia em duas palavras na Torah: “Isaac e Ismael”. Deixe-me situá-las no contexto. A Torah nos conta: “Avraham expirou e morreu em uma boa velhice, maduro e satisfeito, e foi reunido ao seu povo. Seus filhos, Isaac e Ismael, sepultaram-no na caverna de Macpela” (Gn 25.8-9). Parece algo inofensivo. Mas, veja bem, o Talmud extrai uma conclusão a partir dessas duas palavras que transforma Ismael — de um homem indomável e reprovado — em alguém digno de um lugar na história judaica: um gigante talmúdico que carrega esse nome. O Talmud, no tratado Bava Batra, nos ensina que, pelo fato de Ismael — o filho mais velho — ter cedido a precedência a Isaac — o filho mais santo —, podemos concluir que Ismael se arrependeu de seus maus caminhos. De fato, é a isso que se refere a expressão “boa velhice”, mencionada por ocasião do falecimento de Avraham.

Incrível! A transformação de uma vida inteira sintetizada no gesto simples de deixar o irmão mais novo passar à frente. E Ismael torna-se a figura que dá nome a um grande rabino! Como isso é possível? Apenas por ter deixado o irmão mais novo passar primeiro? Será mesmo possível?

Richard Busby (1606-1695), diretor da prestigiosa Westminster School, era conhecido por sua disciplina rigorosa. Conta-se que, ao longo de seus 58 anos como diretor, apenas um aluno passou pela escola sem ter sido pessoalmente castigado fisicamente por ele. Dada a sua excelente reputação, a escola recebeu a visita do rei Carlos II.

Enquanto o Dr. Busby apresentava a escola ao rei Carlos II, notou-se que, contrariando a etiqueta, o diretor manteve o chapéu na cabeça na presença do monarca. Um dos assessores reais chamou a atenção do diretor para essa flagrante violação do protocolo.

Busby não se deixou abalar. Ele se justificou com as seguintes palavras: “Não seria adequado que meus alunos imaginassem que existe, na face da Terra, alguém maior do que eu”.

Pense bem. Quem estava presente naquele funeral? Todos os netos de Ismael, cada um deles profundamente convicto de que eram os descendentes do filho verdadeiramente escolhido.

Chega, então, o momento do funeral de Avraham, uma ocasião que reuniu centenas de seus seguidores e admiradores. O protocolo ditaria que o verdadeiro herdeiro caminhasse à frente. Era o cenário perfeito para uma declaração de posição — o momento ideal para reafirmar ser o verdadeiro herdeiro e proclamar ao mundo que, com o falecimento de Avraham, “não existe, na face da Terra, ninguém maior do que eu”.

Ainda assim, Ismael cede. Ele permite que Isaac passe à frente. Talvez esse seja um ato ainda mais grandioso do que depor uma espada ou abraçar um inimigo; trata-se de romper com um traço de caráter profundamente enraizado. E romper com um traço de caráter — romper com o desejo de obter um pouco de respeito aos olhos dos observadores — é um verdadeiro sinal de grandeza.

Tradução: Mário Moreno.

Share this Post