Um Nome Próprio
D-us disse a Avram: “Vai… e farei com que o teu nome seja grande…” (Gn 12.1–2). Espere um pouco: ter um nome não era, por acaso, o problema com as pessoas que construíram a Torre de Babel?
Elas disseram: “Vamos, edifiquemos para nós uma cidade e uma torre cujo topo chegue aos céus, e façamos para nós um nome…” D-us disse: “[Eles são] um só povo, e todos falam uma única língua; e é isto que começaram a fazer?” (Gn 11.4, 6).

A diferença é sutil, mas importante. D-us não falou em criar um nome para Avram — da mesma forma que o povo da torre planejou fazer para si mesmo. D-us apenas prometeu tornar o nome que Avram já possuía maior, mais grandioso. É uma distinção importante.
As pessoas frequentemente falam sobre “fazer um nome” para si mesmas neste mundo. Da mesma forma, falam sobre deixar sua marca na história. Elas parecem nutrir o medo de serem esquecidas após a morte, ou de passarem despercebidas enquanto ainda estão vivas. Construir um nome para si torna-se uma forma de autoafirmação. Essa, evidentemente, não é uma ideia estranha à tradição judaica. A Mishná, em “Pirkei Avot”, aborda o tema:
Quem adquire um bom nome, adquire algo para si mesmo. (“Pirkei Avot” 2:5)
Rabbi Shimon diz: Existem três coroas — a coroa da Torah, a coroa do sacerdócio e a coroa da realeza —, mas a coroa de um bom nome supera todas elas. (“Pirkei Avot” 4:13)
É claro que isso não se refere ao nome que seus pais lhe dão ao nascer — o qual, segundo o Arizal, é fruto de “Ruach HaKodesh” (Inspiração Divina) (“Sha’ar HaGilgulim”). Os pais podem escolher os nomes judaicos de seus filhos, mas é a “Hashgachah Pratit” (Providência Divina) que, de uma forma ou de outra, conduz o processo para que cheguem a essa escolha. Isso demonstra que os nomes judaicos não são aleatórios nem meras convenções; eles constituem, na verdade, uma espécie de descrição do elemento espiritual de uma pessoa.
De fato, a própria grafia da palavra revela uma percepção interessante. As mesmas letras que compõem “shem” (“nome”) — “Shin” e “Mem” — também formam a palavra “shum” (“lá”), no sentido de “naquele lugar”. Um nome é uma forma de “localizar” alguém — não apenas no espaço e no tempo, mas na própria vida. As palavras em hebraico são formadas por letras hebraicas, cada uma das quais expressa um conceito específico. Embora nem sempre saibamos como, um nome hebraico “localiza” uma pessoa espiritualmente, sugerindo um potencial espiritual que talvez ainda não tenha sido plenamente realizado.
Quando a maioria das pessoas fala em “fazer um nome para si mesma”, geralmente refere-se a algo que consideram importante. Elas buscam realizar algo que impressione os outros, que atraia atenção para si e para suas ações — algo que transcenda o comum, na esperança de que aqueles a quem respeitam também passem a respeitá-las. Isso tem pouco a ver com o seu nome “pessoal” — aquele que poderia descrever a singularidade da sua alma — e muito mais com aquilo que os outros admiram. Era exatamente isso que o povo de Migdal Bavel (a Torre de Babel) tinha em mente ao iniciar seu ambicioso projeto.
Contudo, fica claro que esse não era o tipo de nome admirado por Aquele a quem eles mais precisavam impressionar: o próprio D-us. Pelo contrário, D-us não apenas não tinha interesse em engrandecer esse nome que eles haviam criado, como também não desejava que tal empreitada prosperasse; Ele prontamente desmantelou a estrutura que haviam construído para esse fim. E o mesmo ocorreu em diversas situações semelhantes ao longo da história.
Portanto, quando D-us prometeu tornar grande o nome de Avraham (Abraão), Ele certamente referia-se ao seu nome verdadeiro — não aquele que ele próprio escolheu, mas aquele que ele passou a representar à medida que se tornou “Avraham Avinu” (Abraão, nosso patriarca). Ao acrescentar, Ele mesmo, uma letra “Heh” ao nome “Avram” (Abrão) e outra ao nome “Sarai” (Sara) — e, mais tarde, ao revelar a letra “Yud” no nome de “Pinchas” (Fineias) —, D-us deixou claro que eles haviam, de fato, conquistado seu próprio nome, tornando-se dignos dele por meio de seu crescimento pessoal e de seu serviço a D-us. Certa vez, alguém me contou que conhecia seu nome hebraico desde os tempos em que frequentava um “cheder” (escola judaica) conservador. Como era uma pessoa secular, raramente o utilizava; mas, nas poucas ocasiões em que precisava fazê-lo, sentia um certo desconforto ao ouvi-lo. Ele simplesmente não gostava do nome que lhe haviam dado, embora nunca o tivesse usado o suficiente a ponto de querer mudá-lo.
Muitos anos mais tarde, ele acabou chegando, de forma inesperada, ao judaísmo baseado na Torah, ingressando inclusive em uma “yeshivá” (instituição de ensino da Torah) para dedicar-se ao estudo em tempo integral. Ele continuava a ser chamado pelo seu nome em inglês, mas um de seus professores de “Guemará” (estudo do Talmud) insistia em chamar os alunos pelos seus nomes hebraicos. A contragosto, ele revelou o seu. O professor sorriu ao ouvi-lo e comentou: “Combina com você”.
Levou algum tempo até que ele se acostumasse a ser chamado pelo seu nome hebraico, mas, com o passar do tempo, passou a se identificar mais com esse nome do que com o seu nome em inglês, adotando-o como forma de identificação. Ele esqueceu o que sentia pelo nome anteriormente e, em vez disso, começou a se identificar com a figura bíblica que possuía o mesmo nome. Quanto mais essa identificação crescia, mais ele se sentia em paz consigo mesmo. Hoje, ser chamado pelo seu nome em inglês provoca nele a mesma sensação de desconforto que, antigamente, ele sentia ao ouvir seu nome hebraico.
O Arizal afirma (em “Sha’ar HaGilgulim”) que, quando uma pessoa falece, anjos aproximam-se dele e perguntam qual é o seu nome. Se o falecido consegue responder corretamente, ele é poupado de uma transição difícil para o mundo vindouro. Caso contrário, ele acaba descobrindo o nome correto, da maneira mais difícil. Esta tradição está relacionada a “nova identidade” que uma pessoa recebe ao entregar sua vida a Ieshua, mas isso não é citado diretamente na tradição, só há pistas disso, como está dito aqui pelo Arizal.
Mas, explicou o Arizal, não é o nome que seus pais lhe deram ao nascer que eles perguntam. Pois disso todos se lembram. Trata-se do nome do seu “yetzer hará” — a fraqueza pessoal que a pessoa carrega em si mesma. Conhecer esse nome – sua nova identidade em Ieshua – significa que o indivíduo trabalhou em si mesmo durante sua vida e, portanto, não precisa sofrer após a morte. Não saber esse nome significa que a pessoa abriu mão de sua retificação pessoal em troca dos prazeres do mundo anterior, e agora terá de enfrentar uma “punição” bastante desagradável após a morte.
Contudo, conhecer esse nome implica também conhecer o nome da sua própria alma. Pois somente ao compreender quem você deveria ser é que é possível reconhecer quando você se tornou algo diferente. E D-us estabelece relacionamentos apenas com pessoas autênticas, não com imitações; essa é uma das primeiras e mais importantes lições que extraímos das linhas iniciais da “parashá” desta semana.
Tradução: Mário Moreno.

