Um Chamado para Despertar

Mário Moreno/ outubro 22, 2026/ Artigos

Hashem possui diferentes maneiras de Se revelar aos seres humanos mortais. A Torah nos diz que Moshé era especial. A revelação de Moshé foi descrita como sendo “face a face”. Outros, contudo, viram Hashem por meio de uma visão. Nesta semana, a Torah nos relata a visão de Avram. Trata-se de algo que vai além de uma simples visão; na verdade, é uma experiência extremamente vívida. “E a palavra de Hashem veio a Avram em uma visão: ‘Não temas, Avram’. E Ele levou Avram para fora e disse: ‘Conta as estrelas, se fores capaz de contá-las… Assim será a tua descendência’” (Gn 15.1-5).

Avram sai e tenta contar as estrelas. Depois, ele retorna, e a Torah nos conta que Avram tem uma outra visão. Esta, contudo, manifesta-se de uma forma diferente: “o sol pôs-se, e um sono profundo caiu sobre Avram; e eis que um temor sombrio desceu sobre ele” (Gn 15.12).

É interessante notar o contraste entre as duas visões. A primeira parece dinâmica e esperançosa. A segunda começa com uma sensação de desgraça. Os comentários explicam que a primeira visão trouxe a boa nova sobre o crescimento e a prosperidade futura dos descendentes de Avram. A segunda visão previu a desgraça e o exílio do povo judeu no Egito. É por isso que Avram estremeceu. Mas parece que Avram estremeceu — no momento em que “um temor sombrio desceu sobre ele” — mesmo antes de ouvir a notícia sobre a escravidão no Egito. De fato, o medo surgiu assim que o sono profundo caiu sobre ele. Será que o próprio sono teria desencadeado a premonição desse medo? Talvez o sono profundo tenha despertado um sentimento iminente de desespero, o que causou aquele grande temor. Como?

O rabino Shimshon Zelig Fortman era o rabino da Congregação Knesseth Israel, em Far Rockaway, durante a década de 1940. Naquela época, os céticos praticamente descartavam qualquer possibilidade de um renascimento do judaísmo ortodoxo. Eles quase não tinham voz em Washington, estavam desorganizados e fragmentados; a destruição dos judeus europeus parecia ser, por assim dizer, o último prego no caixão do judaísmo tradicional baseado na Torah. O rabino Fortman tinha um genro jovem, Moshe, que havia estudado na Yeshivá Ner Israel, em Baltimore. Ele costumava dizer ao sogro que via, para o judaísmo ortodoxo, um futuro repleto de honra e poder. Seus representantes teriam acesso direto ao Congresso, ao Senado e até mesmo ao Presidente dos Estados Unidos. Eles influenciariam a legislação com seus valores e lotariam estádios e coliseus com assembleias de estudo da Torah e reuniões de oração!

O rabino Fortman estava muito preocupado com os sonhos utópicos de seu jovem genro. Ele sentia que esses sonhos o distraíam e que, por causa deles, ele jamais realizaria nada. O rabino Yosef Kahanamen, o “Ponovezer Rav”, havia chegado recentemente aos Estados Unidos para arrecadar fundos para sua Yeshivá em Israel e estava hospedado na casa do rabino Fortman, em Far Rockaway. O rabino Fortman pensou que, certamente, o rabino Kahanamen daria um fim às fantasias de Moshe e lhe ensinaria sobre a realidade das realizações concretas.

Moshe e o rabino Kahanamen conversaram por quase uma hora. O Rav ouviu com atenção e, então, disse ao jovem Moshe: “Sonhe, meu filho. Continue a sonhar. Na verdade, você pode continuar sonhando por toda a sua vida. Mas lembre-se de uma coisa: nunca adormeça.”

Com o passar do tempo, o jovem Moshe tornou-se conhecido por centenas de milhares de judeus ao redor do mundo como uma das personalidades mais influentes no surgimento do judaísmo fiel à Torah nos dias de hoje: o rabino Moshe Sherer, presidente da Agudath Israel of America até seu falecimento, no ano passado.

Talvez, em uma interpretação homilética, possamos dizer que Avram começou a tremer no momento em que o sono o dominou. Ele compreendeu que grandes visões de grandeza poderiam surgir em um sonho, mas que nada de bom poderia advir se ele caísse no sono! Pois, se aquele que tem a visão adormece, todos os seus sonhos perdem-se no sono profundo.

Tradução: Mário Moreno

Share this Post