Anseio por fazer parte disso

Mário Moreno/ julho 17, 2026/ Artigos

וְכָל הַמִּתְאַבֵּל עַל יְרוּשָׁלַיִם זוֹכֶה וְרוֹאֶה בְּשִׂמְחָתָהּ — “E todos aqueles que lamentam por Jerusalém merecem testemunhar a sua alegria” (Orach Chaim 554:25).

Em Tishá B’Av e nos nove dias que o antecedem, somos convidados a olhar para trás, para um tempo anterior à nossa existência e consciência individuais. Eis um desafio! Como fazemos isso? Por que o fazemos? Por que olhar para um passado distante é uma promessa de um futuro auspicioso? Como isso funciona?

Há quase 500 anos, o Maharal de Praga escreveu uma obra (“Sefer”) intitulada “Netzach Yisrael”, dedicada a descrever a dinâmica espiritual e os mecanismos da eternidade e da indestrutibilidade do Povo Judeu. Logo no primeiro capítulo, ele apresenta uma tese notavelmente inovadora, cuja credibilidade só aumenta com o passar do tempo. Ele afirma que o “Galut” — o exílio do Povo Judeu e sua dispersão entre as nações gentias — é, na verdade, uma prova clara da promessa de uma “Geulá”, o retorno do nosso exílio. Como assim?

Há algumas premissas que precisam ser explicitadas, e espero que minha paráfrase faça justiça ao raciocínio dele. Primeiramente, o exílio, por definição, é um estado antinatural. Significa que não estamos onde realmente pertencemos. Somos alienados e estrangeiros em terras alheias. Não é natural que algo permaneça onde, por natureza, não lhe cabe estar. O fogo tende a subir e não pode ser contido; a matéria terrena não consegue permanecer no alto desafiando a gravidade antes de descer novamente à terra.

A água está em constante movimento em correntes subterrâneas, pequenos afluentes e rios caudalosos, correndo e retornando à sua fonte coletiva: o oceano. É da natureza das coisas retornar à sua origem.

Da mesma forma, o Povo Judeu constitui uma nação singular; assim permanecemos mesmo no exílio, sob as circunstâncias mais adversas, mantendo-nos como um povo independente, com a capacidade e o desejo de autogoverno. Não é natural, diz o Maharal, que permaneçamos por muito tempo sob a hegemonia de entidades governamentais estrangeiras. Nosso estado natural é estarmos reunidos em Israel; é para lá que nos dirigimos o tempo todo, consciente ou inconscientemente. Talvez agora possamos compreender a afirmação do Rebe Nachman: “Para onde quer que eu vá, estou indo para Jerusalém”. Estamos a caminho, ainda que a rota seja, por vezes, tortuosa e repleta de desvios perigosos.

Toda a história judaica é um quebra-cabeça — não apenas em sentido figurado ou metafórico, mas literalmente. Ao comprar um quebra-cabeça, encontramos dentro da caixa uma profusão de peças misturadas. Na tampa, há uma imagem bela e intacta que nos recorda como tudo era maravilhoso num passado distante, antes de essa imagem ser despedaçada e espalhada em fragmentos díspares. Embora esses pedaços pareçam irreconhecíveis em sua configuração atual, a imagem na tampa da caixa também funciona como uma janela para o futuro — para como as coisas poderão e deverão ser um dia, quando cada um encontrar o seu lugar.

Essa imagem cumpre uma dupla função. Ela nos permite vislumbrar o passado. As peças do quebra-cabeça já estiveram magnificamente unidas — não apenas vagamente coesas, mas verdadeiramente como uma unidade. Então, tudo isso foi tragicamente rompido. Concentrar-se na imagem de como tudo era maravilhoso desperta um profundo anseio, um senso de propósito individual e coletivo, e uma conexão com o nosso destino. Ansiamos por nos reunir e restaurar aquela glória de outrora.

Pior do que a catástrofe original da dispersão é perder de vista aquele retrato de como tudo era maravilhoso e do que se perdeu. Quando alguém está perdido e sequer se dá conta disso, trata-se de uma tragédia dupla.

No entanto, se vivemos com a consciência — um vislumbre — daquela “imagem”, mesmo que os detalhes não estejam perfeitamente nítidos, então sempre resta uma centelha de esperança, e o próprio exílio encerra a promessa de uma glória futura. Repito: toda a história judaica é um quebra-cabeça, e continuamos a ansiar por fazer parte dele!

Tradução: Mário Moreno.

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